entropia

Há uma teoria que afirma
toda iniciativa de pôr ordem
às coisas
o simples ato de impor
um pouco de ordem
à desordem
que toda manhã
impera
no quarto
provoca uma
nova desordem
apenas momentaneamente
imperceptível
sob os lençóis estendidos
sob os travesseiros lado a lado dispostos
sob os papéis recolhidos e empilhados
sob os móveis livres da poeira
sob a ausência dos copos d’água vazios
e borra de café no fundo das xícaras
Sob as roupas recolhidas dobradas ou postas para lavar
sob tudo isso segue a desestabilização da ordem
talvez num canto (da sua perspectiva) mais remoto do planeta
ele seja a mínima, a nano-ínfima gota que falta
para o terremoto que arrasa o Nepal
para o tsunami que arrasa a costa da Indonésia
para o desaparecimento do avião sobre o Oceano Índico
para o avanço irresistível da mais avançada e mais tenebrosa fase
[do capital
para o sequestro da criança
para o estupro da menina pelos colegas de escola
para a eleição do mais abjeto Congresso Nacional
e mesmo para os seus próprios pensamentos
sujos e inconfessáveis
Talvez se pague um preço surreal por esse quarto arrumado
em que você se senta esperando escrever
quem sabe algo que você possa
da sua perspectiva
chamar de poema

Simone Brantes nasceu em Nova Friburgo em 1963. É autora de três livros de poemas: Pastilhas brancas (1999), O caminho de Suam (2002) e Quase todas as noites (2016), que saíram pela editora carioca 7Letras. Publicou poemas e traduções de poesia em jornais e revistas como O Globo, O relevO, Inimigo Rumor, Poesia sempre, Polichinello, Revista Piauí, Action Poétique e Lyrikvännen. Participou de algumas antologias como A poesia andando: treze poetas no Brasil (Lisboa/Cotovia) e Roteiro da poesia brasileira. Anos 90 (São Paulo/Global). Prepara um novo livro de poemas.