três poemas

dramas de mudança I

grudo a minha cabeça na parede
formada por todos os dias
em que acordamos juntos
descanso a minha testa
no muro pintado
em silêncio e com prudência
por nossos pés molhados
projeto as suas ações de chegada
e as minhas danças de adeus
no tapume que sobrou da nossa
breve habitação a casa do tormento
espaço de agravos e injustiças
território que visito nos dias nublados
esquadrinho os cômodos:
você continua usando o mesmo tom
para as leituras em voz alta
eu continuo com saudade
das suas roupas sem graça
dos seus passos tortos
a minha cabeça enfiada no seu peito
nós dois de frente para o espelho
admirando a beleza dos enganos

como é bonito o amor com fronteiras
o amor que não se pretende conquistas
como é bonita uma parede de impostura
queria que esse dia durasse para sempre
eu fico te olhando e imaginando a gente
junto três pontos o papel da doçaria
do centro te ver de novo na horizontal
tremer como em convulsão sentar enfim
olhar para a parede — eu desejo esse sítio
porque nele ainda encontro a vontade
de engolir o mundo outra vez.

dramas de mudança II

voltar para o início
como quem abandona o mar
antes de entrar no navio
ou
como quem corta o coração
antes de escolher a próxima corrida.

a separação

então eu disse
vamos a Roma
compramos uma casa
no mais alto bairro
acordamos em frente
ao vendedor de palmeiras
perdemos nossas meias
antes do pôr-do-sol

pegamos em armas
combatemos o escorpião
as aranhas e os ratos
embaixo de nossa cama
você assistiu sorrindo
aos arranhões na minha barriga
a cada dia em que eu acordei
à procura de nossa última saída
fomos o espelho um do outro
os finais de semana feitos aos gritos
clarões de um amor pós-epidemia

a escrevente chamava-se Wânia
eu pensava naquele dia
em que você me tomou nos braços
como quem segura um relógio antigo
todo o peso do tempo entre
os seus dedos e o meu corpo doente

escuto que nós morremos
faz sol e aqui também é o meu lugar
Wânia afirma que estou de passagem
eu me pergunto quando estive
inteira no espaço comprometida
com a justiça de minha pátria
ou com os seus olhos fechados
soletro meu nome
confirmo o nosso calendário
dois anos e três meses
você sempre será a primeira casa
que destruí com as minhas mãos.

Priscilla Campos é jornalista e crítica literária. Mestranda em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pesquisa as representações de espaço e a figura do caminhante na literatura espanhola contemporânea. Escreve para o Suplemento Pernambuco, Revista Continente, Peixe-elétrico, entre outros veículos.