poema s/título

ao final
tudo se resolverá
como no último capítulo da novela
sem falta de dinheiro
de emprego…
o amor será longo
o beijo eterno
e a felicidade
cairá sobre nós
como um pombo assado
assim
sem + nem –
sem esforço
como o pão servido no café da manhã
— da televisão —
o almoço farto
o jantar requintado
na ficção não existe
• aluguel atrasado
• dente podre doendo
• título protestado
• fila do SUS
• assalariado
& na vida real
cadê o maldito
pombo assado
que não cai?
eu
ator sem papel
nem figuração nem ponta
sem rumo ou horizonte
e na linha o que aponta
é o espectro que fere
humilha
mata
desaponta
f o m e
… e aquela ponta guardada…
é contravenção fugir e sonhar
só um pouquinho?
e eu
ator sem papel
um dia quem sabe
no máximo bufão
peça deste quebra-cabeça
de encenar
vendo a novela da TV
e o tempo passar
eu
peça deste
joguinho de armar
— é um eterno atuar
não nos é permitido ensaio —
homenzinho
feito de barro
que cedeu a costela
e blá-blá-blá
quem mandou
comer a maçã
ou eva
sei lá
e o raio
do último capítulo
o que tudo resolverá
quando é que vão
escrever?

Cláudio B. Carlos é poeta da nulidade, filósofo do nada e editor de livros marginais. Nasceu em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS.