o amigo vivo

A gilette de plástico laranja desliza com um movimento desgovernado e você meio que espera o sangue, algum tipo de vazamento, algum tipo de dor. Mesmo agora. O sangue não virá. Pressiona o gume contra o dedo, também sem efeito. Você segura com mais força a lâmina, deixa que ela arranhe a sua pele com o fio gélido, separando dela um tufo de barba preta e espessa. Os emaranhados pousam suaves sobre a pia de louça, desenhando linhas e pontos, entupindo o ralo do banheiro de Mousta. Você e Mousta se conhecem há alguns anos, e ele já te viu rezar de olhos fechados e ele já te viu se coçar e ele já te viu dormindo e desperto e comendo e e dançando e mijando e rindo e suando, tudo isso ele viu.

Agora Mousta não te vê, está sentado sobre a privada, olhos no piso. Você bate a gilette contra a pia, uma, duas, três vezes, não para descolar os fios que se abraçam à lâmina mas para forçá-lo a te encarar, quem sabe agora, protegido pela distância do espelho. Quem sabe agora, com você de costas, ele se anime a olhá-lo nos olhos, a ver o seu rosto-reflexo metade barbeado. Não. O tapete de ráfia no chão exige a total a atenção do seu amigo, corpo para frente em uma corcunda temporária. Ainda hoje ele estava falante, insistiu que você comesse também o pão dele pela manhã, distribuiu tapas nas costas e abraços, descreveu quase 20 das 72 virgens que estariam lá para te receber. Esta manhã. Então você volta a atenção para a sua própria imagem. Os olhos pretos seguem pretos, o nariz continua adunco como se um peso invisível o puxasse para baixo. Pálpebras inchadas e os lábios secos, cobertos de peles finas como papel vegetal. A máscara da barba vai perdendo volume e revelando um queixo anguloso que você já não conhecia, aqui uma pinta saltada com a qual você tomaria cuidado ao se barbear se este fosse outro dia, ali uma ruga ainda rasa que agora terá a chance se aprofundar.

Você fez tudo o que deveria. Não economizou no C4, os fios de cobre foram desencapados e testados com uma lâmpada. Funcionavam. Era uma lâmpada vermelha, pequena, com soquete cheirando a plástico, daquelas chinesas que os cristãos colocam para decorar árvores no nascimento do seu profeta. Daquelas bem vagabundas. Mousta a comprou na loja do senhor japonês, junto com o alicate, fita adesiva e um canudo colorido que faz o líquido dar muitas voltas antes de chegar na boca. Tinha rido e soprado bolhas por ele. O canudo não era para a bomba, apenas uma das bobagens que Mousta às vezes gostava de comprar. O bigode agora diminui, fatia por fatia, com a passagem da gilette. Há uma dobra sobre o seu lábio superior de covarde. O que as virgens pensariam dessa pele áspera, mais clara que as outras porções do rosto? Você passa os dedos úmidos pelo queixo e bochechas, em uma mímica do que seriam os gestos delas, das garotas que nunca fizeram sexo e que Allah escolhera a dedo apenas para você. Será que se você se deitar com uma, ela é substituída por outra virgem? Ou após 72 vezes você teria que passar a eternidade sem virgem nenhuma — 72 mulheres normais? Será que elas ainda estão esperando? Você merece. Fez tudo direito, exceto sobreviver.

Mousta parece se sentir melhor e encontra os olhos do seu rosto-reflexo. Está desolado porque você não está morto. É um bom amigo. Queria ter conhecidos no paraíso, para abraçá-lo e estapear suas costas quando ele mesmo chegasse. Uma vontade de se desculpar faz voltas no seu estômago, mas você não sabe pelo quê. Você fez tudo direito. O colete foi preso com muita fita adesiva. Um suéter grosso e longo por cima, apesar do dia de sol. Os movimentos foram calculados para evitar o desencaixe dos fios ou o disparo antes do momento certo. A posição foi a combinada, sob uma árvore de tronco imenso, a sombra refrescando o suor que se acumulava no pescoço. Em frente à saída da escola judaica. Foi difícil segurar o sobressalto e o movimento do dedão quando o sinal tocou, o trinado de um implacável pássaro metálico.

Você fez uma prece enquanto esperava que as crianças se acumulassem na calçada, numa sobreposição de mochilas e mãos segurando latas de coca-cola. Judeus são os mesmos em toda a parte. São ainda mais judeus fora de Israel, vagando sem pátria como merecem. Mesmo daqui, desse lugar distante, em um bairro de nome Jardins, em um país de nome Brasil, você pode sujar as mãos com os serviços de Allah. Sim, porque eles estão aqui e você também. Vocês trouxeram as fronteiras consigo. Você estava pronto. Foi só depois de sentir o botão afundar sob o dedo que uma vontade de viver ofuscante tomou a sua mente. Explodindo junto com o calor e a luz e a falta de oxigênio que deve ter durado poucos segundos. Você fez tudo direito. A princípio os olhos viam só uma branquidão calcinada e, aos poucos, as cores voltaram a se infiltrar e cresceram até formar figuras de novo. Há mochilas de personagem e carros trincados e galhos de árvore e mãos avulsas em torno de latas de coca-cola e papel de caderno e vidro e tecido e carne de gente por todo o chão. Mousta não entendeu quando você voltou a pé, muitas horas mais tarde, pela tevezinha ele via a comoção e o seu rosto ampliado a partir das imagens de uma câmera de segurança de um posto de gasolina a uma quadra da escola. Você também não entende. Talvez Allah tenha trocado suas virgens pela vida que você desejou cegamente, sem querer. Talvez elas estejam a esperar pacientes pelo dia em que você morrerá de causas naturais. Ao ver que seu rosto está limpo, Mousta se aproxima com uma toalha e uma camisa e diz apenas Chega. Fora daqui.

Você sabe que deveria estar triste, e meio que espera uma pontada que nunca chega. Agora, nada pode te machucar.

Nathalie Lourenço é publicitária por profissão e paulistana por nascença. Nunca possuiu um pônei. Seu livro de estreia, Morri por Educação, foi finalista do concurso Maratona Literária e publicado pela Editora Oito e Meio. Teve contos publicados em revistas literárias como Blecaute!, Flaubert, Parênteses, Vacatussa, Philos, Subversa, Raimundo e outras. Escreve também crônicas em medium.com/@ridicula.