quatro poemas

os figos

Sylvia Plath diz que é preciso
escolher um figo
Mas eu estranho
fico cabreira
Nunca soube escolher figos

Na minha época de pequena
havia a figueira centenária
da minha mãe

Bastava florescer e começava a guerra

A disputa, de início
era eu e minha mãe
verde e maduro

[Antes de madurarem figos viram compotas]

Por meus olhos úmidos
e pela glicose alta
minha mãe desistia dos figos

[Figos nunca foram uma questão de escolha]

E aí mais uma batalha
Os sanhaços
tão azuis, tão bonitos
me carregavam de culpa

Feito pequenas máquinas de devorar
eles escolhiam todos os figos
e eu qualquer figo maduro

Sem poder de escolha
eu defendia os sobreviventes

As armas eram
restos de tecido
retalhos costurados
bicos potentes
lanças na cara

No fim das contas,
as máquinas sempre vencem
e me restava só um figo
O que sobrava.

Então, Sylvia
nunca escolhi meu figo
minha escolha, silenciosa,
sempre foi desistir dos figos.

É que pra alguns, querida,
o que importa mesmo
é a batalha.

um caroço de abóbora japonesa

Aprendi
que se você joga um saco de terra no vaso
é incontrolável que surjam pequenas folhas

plantas sem nome
diria minha mãe
é tudo mato

mas resolvi jogar terra em um vaso
e ali algumas sementes que iam pro lixo

não me preocupei
nada do que planto dá
não tenho interesse em fertilidades

mas aí brotou por entre o lixo
uma folhinha

puxei o mato
mas ele saía do caroço da abóbora japonesa
do purê de semana passada

ela ali crescendo
orientalíssima em meu vaso de lixo orgânico
minha última tentativa de gratidão

com o broto na mão
fiquei pensando nos mestres japoneses
e naqueles samurais de coquezinho
naquelas moças com pés cortados
sapatos de madeira
nos budas de porcelana

e aquela folha ali brotando

então é isso, não dá
não sei lidar com vidas pacientes
com essa folha japonesa
delicada rompendo o lixo
feito um hexagrama de i-ching
me ensinando a brotar

mas não dá
é poesia demais pra mim
logo eu que não sei meditar

chá de camomila

Quando pequena, existia a tara
por crianças Johnson&Johnson
que exibiam seus cabelos loiros
volumosos
cheios de propaganda na tv
por conta disso, as mandingas para cabelos loiros
me eram constantes

Eu não sabia que era pecado não ser loira

Naquela época
minha mãe exorcizava os piolhos
e o cabelo que escurecia a passos largos

na mandinga,
em cima da cama
ela polvilhava neocid
e depois me lavava com chá de camomila
e depois shampoo Johnson&Johnson para cabelos claros

Abafava os piolhos e meu cabelo acastanhado

Hoje, depois de anos
depois das desilusões com a mandinga
tenho pavor ao loiro e ao chá de camomila

agradecida
só não me queixo dos piolhos
que foram embora cedo
junto com a inocência dos bebês Johnson&Johnson
e meus cabelos loiros

cecília

Não conheci minha avó materna
os laços com as mulheres
da minha família foram criados
entre mãe e filhas

no silêncio da casa
os passos traziam
histórias e copos
com xaropes centenários
para cessar
uma tosse que pedia atenção

as palavras misturadas
às gemadas e leite com açúcar
queimado no peito o chiado
iam se construindo
sussuros

sua vó estudou até a terceira série. gostava de ler. ela estudava com a gente os livros do ginasial. exigia de nós o que ela não pode. lia livros de História como quem lê jornal. e o jornal, ela não podia comprar. mas lia as notícias das folhas que embalavam o peixe do começo do mês. enquanto a panela cozinhava, ela lia aquele jornal que ninguém podia jogar fora.

de que importa o cheiro a quem prefere palavras?

e então, assim
nos sussurros da tosse
acreditei poder embalar a vida
com palavras

e só
mais tarde percebi
laços não precisam de nada
além de memórias

Estela Rosa é escritora, poeta e caipira, formada em Letras pela UFRJ. Teve poemas publicados na Revista Grampo Canoa, da Luna Parque Edições, na Revista Parêntesis, na iniciativa Mulheres que Escrevem e na Coletânea Prêmio Off Flip de Literatura 2017. Já colaborou também com textos para o Jornal RelevO, Revista Blooks e Ovelha Mag. Desde 2016, faz parte da iniciativa Mulheres que escrevem, onde é curadora de textos e organizadora de eventos, realizando encontros mensais sobre mulheres escritoras no Rio de Janeiro.