cinco poemas

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Você me ofendeu gravemente. Duas vezes. Peça desculpas. Que isso não se repita. Eu jamais disse isso. Você é muito sensível. Não faço julgamentos. Eu sou um cara bacana. Você me fez chorar muito, mas tudo bem. Minha ex-mulher é psicopata. Minha ex-namorada era agressiva. Criava problemas. Já não há diferença entre mulheres e putas. Todas fazem de tudo na cama. De sexo eu entendo. As mulheres dão em cima de mim. Eu sempre fui bonito. As que gostam de sexo procuram. As outras se afastam. As mulheres são materialistas. Elas competem entre si. Não dá para conversar com elas. Você é diferente. Você é intelectualizada, inteligente. Você vê coisas onde ninguém vê.

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O exterior é uma perfeita paródia do interior. Um arquivo caótico de visões internas. Paranoia é minha pele de leopardo. Eu uso ela como uma performance. É um enfrentamento. É como eu protejo minha ingenuidade: cobrindo as paredes com espelhos. Elas iluminam e ampliam as tuas mentiras. É esplendoroso. Deus é maior que tudo isso.

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Tenho medo de síndrome da guerra mundial. Tenho medo de vampiros. Tenho medo da morte. Eu posso ouvir os vampiros. Eles falam como gente. As faces deles me assustam. Eu posso ouvir anjos, demônios, vampiros, e lobos. Eles estão falando sobre mim. Eles vieram me salvar. As janelas estão fechadas, e os anjos não podem entrar. Ela pensa que eu sou um vampiro, e me persegue com uma estaca na mão.

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Minha mãe está a rezar por mim em Portugal. Eu ia muito à minha igreja. Sim, troquei sexo por cocaína. Mas senhora doutora. Sabes que uma pessoa pode ficar louca com sexo? Sexo sem proteção. EU TAMBÉM SOU FILHA DE DEUS. Este gajo que conheci acho que ele gosta de mim. Ainda tenho o número dele. É tão bom falar com alguém na minha língua. Estas pessoas aqui são tão frias. Tu és tão bonita. Pareces uma santa. Gostaria de colher umas análises. Para HIV, sabes. Quando é que posso sair? Quero ver meus amigos, quero fumar ganja. A doutora vem amanhã? És tão diferente, gostei mesmo de ti.

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Você está recebendo mensagens? Pode ser. Do espaço.

Faz muito tempo que não vejo um pássaro. A última vez foi numa peça incomum. O que aconteceu com a British Airways?

Pode me dar uma semaninha por favor? Eu não fiz nada de medonho.

Virna Teixeira nasceu em Fortaleza. Tem três livros de poemas publicados no Brasil, além de várias plaquetes de poesia. Publicou A Terra do Nunca é Muito Longe (Não edições, Lisboa, 2014), que saiu em versão bilíngue em Londres em 2016. Traduziu três títulos de poesia escocesa, edita poesia brasileira pela Carnaval Press em Londres, é neurologista, e também atua na área de psiquiatria. Sua próxima coleção de poesia, Suite 136, sairá este ano pela Demônio Negro, no Brasil, e pela Douda Correria em Portugal.