quatro poemas

graças a deus entre nós

dar nome ao prato
com o resto da tarde
espinha de peixe e
mosca inteira
dar nome
porque devemos chamá-lo
porque estava era um
de nós à mesa
e nele o resto de tudo que não
foi digerido
dar nome pois
que nomeado terá chances
de ser magoado culpado trincado
cúmplice
um prato
desde o começo era ele entre
nós e deitamos do tudo sobre o
ódio e sobre as alamedas vazias
que em chulo dialeto
fizemos dos nossos almoços de domingo
graças a deus
graças a deus entre nós
espinha de peixe e
mosca inteira
seu apelido

tudo empilhado

o burro trota tão lentamente
perdido do nome gritado
carrega ovos nas mãos escondidas nas
mangas do casaco extralargo
coitado do burro com mãos
perdido da moldura antiga
pacífico de sua própria demência
bonito tão bonito pacífico tão lindo
lentamente ruma
já a casa de fé nos olhos de burro
parece um peixe coitado pacífico
tem esse jeitão de aquário trincado
gosta de cadeiras em geral
mas é boa gente
gosta de leite quente e de cadeiras
em geral
chega ao templo das irmãzinhas castanheiras do último dia
deixa os ovos no altar
faz carinho nos porcos
pega o microfone e repete
quase porque quase porque quase
tudo empilhado
quase porque quase porque quase porque

é mesmo um burro
queria ser pianista
tem muita fé quase porque tudo empilhado
mas é mesmo um lento burro de carregar ovos
pacífico todo pacífico demente e lindo
tão bonito tudo empilhado

lhufas vão bem com vinho turvo

alguém diz que o dia é baldio
basta a vibração das palavras para
que um homenzinho
alimente o gato
corte os cabelos
acarinhe o pensamento sujo
de pássaros
basta a vibração
para
que o chão esteja
para que o chão receba o rosto e os joelhos
do corpo que cai com a visão
mandalas na radiação solar
basta o sol embutido nalgum sentido
do dia baldio para que
alguém comece a salgar a carne
lavar as folhas
alguém diz que o dia é baldio
alguém diz lhufas vão bem com vinho turvo
alguém com alguém passa 11 horas num
elevador entre o sexto e o sétimo piso
fazem um filho ou uma saída
o dia é baldio
alguém cai duro no sofá de bambu
alguém espera que o dia baldio acabe
então basta
esperar para que a noite chegue
inculta
cabendo a tudo
o dia na noite com salada
sujeira de pássaros
lhufas um filho uma saída

vou comprar um rifle

vou comprar um rifle
a munição compro depois
quero um rifle na parede
de frente para a cadeira de balanço
vou pedir para o vizinho da tua prima instalar ali
de frente para a cadeira de balanço
aos domingos vou me vestir de bijuterias
balançar a vida anotar qualquer coisa no
papel de pão olhar o
rifle e cantar uma dessas ladainhas católicas
veja você
essa merda é porque eu não consigo te
dizer que quando você some e reaparece
eu tenho ganâncias de ser porco-espinho sem espinhos
também isso quer dizer que não
sei fazer balanços dos meus relacionamentos

comprar
mais pão
a munição compro depois
ou peço para o vizinho da tua prima

Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. Livra-se em Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria, Portugal, 2015), A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil (Macondo Edições, Juiz de fora), Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro online pela Enfermaria 6, 2017), A Menstruação de Valter Hugo Mãe (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017).