três poemas

mulher da roça

Filó teve onze filhos,
sete maridos
(só dois pegavam na enxada).
Filó tirava leite,
colhia hortaliça
mesmo cansada.
Os onze filhos de Filó
morreram de morte matada.
No sertão,
a mulher que não nasce forte
tem sempre uma história macabra.
Filó tá namorando de novo.
Mas diz que dessa vez não é com namorado.
É com namorada.

* * *

pronuncio uma lista de palavras excitantes
que contorcem a língua num fluxo constante
ou propõem deslizamentos ousados
[fonética reinventada e noturna]
peregrino num percurso escorregadio,
safado,
vadio.
Se dou qualquer ritmo para este ato,
aos poucos,
gozo devagar entre os palatos.

* * *

A mulher vestiu uma saia de estampas invisíveis.
Sete cores. Saiu para dançar.
A estampa transpirou e borrou o invisível com tinta.
E assim, a mulher brincou de sol enquanto o seu suor chovia.
Foi meu primeiro arco-íris.

Thaiz Cantasini é poeta, cantautora, performer, arte-educadora e aRtivista feminista. Mestranda em processos e poéticas da cena contemporânea pelo PPGAC-UFOP. Pesquisadora no NINFEIAS — Núcleo de Investigações Feministas, cantautora no coletivo Minas da Voz — Mulheres Compositoras. Transcriou para a esfera da música cênica obras de Ítalo Calvino (O visconde partido ao meio e O cavaleiro Inexistente), Clarice Lispector (Água Viva) e Sófocles (Antígona). É coautora dos livros Cadernos Musicais — Mambembe Música e Teatro Itinerante, Os olhos do Bilheteiro — coletânea de poesia goiana e, atualmente, lançou Feitiço do Sol, com poesia que esboça nas redes sociais, em uma edição de bolso. Participou do Encuentro X-cêntrico: performance, disidencias e soberanias (Santiago do Chile, 2016) e do II Encuentro Latinoamericano de Investigadores sobre El Cuerpo y Corporalidade em las Culturas (Bogotá, 2015).