rua vergueiro, sem número

Quando ele chegou naquela rua, logo sentiu que poderia ficar. Viu de longe, enquanto caminhava com os pés descalços, um ipê rosa, florido, como havia sonhado. Ele acreditava em sinais. O ipê rosa era um sinal. Ali faria o seu abrigo, sua morada, seu lar. Pelo tempo que tivesse que ser. Para ter a paz que precisava. Ele nem se lembrava mais de seu nome. Morava na rua há tanto tempo, ou será que nem era tanto assim? Saiu do interior, de sua terra, por vergonha. Também atrás de sonhos, ou para fugir? Não sabia dizer.

Em algum lugar, em algum tempo, ele foi o João Paulo, amigo, alegre, trabalhador. Construía casas e ficava feliz em ver as pessoas sonhando com o dia da mudança, idealizando como seria tudo depois de pronto, o quarto do casal, das crianças, o quintal onde plantariam flores. Flores… João Paulo tinha um pequeno jardim, plantava roseiras, e não se irritava quando via alguém pular o muro e roubar uma rosa. Era para dar para alguém, dizia. Ninguém rouba uma flor à toa, e se faria alguém feliz era um roubo justificado. Mas não havia justificativa para o que João Paulo havia feito.

Ele amava Ângela desde a adolescência, estudaram juntos. Ela parou de estudar para cuidar dos gêmeos que tiveram muito cedo, tinha acabado de completar dezenove anos. Ele largou a faculdade de Administração para construir casas, precisava de dinheiro para sustentar a família. Viviam com o dinheiro contado, mas eram felizes. João Paulo trabalhava muito, só via Ângela e as crianças à noite, e quando chegava em casa era recebido com festa.

João Paulo estava cada dia mais cansado. Talvez por isso se esquecesse de tomar banho. Já não era tão alegre e não procurava mais seus amigos. Não era mais uma companhia agradável, bebia e ficava transtornado. Seu melhor amigo queria levá-lo ao médico, mas desistiu depois de levar um soco no rosto. Romperam relações. Às vezes, João Paulo não reconhecia sua casa, ia parar na casa do vizinho, tentava abrir a porta. O jardim estava descuidado, assim como o seu dono. Todos achavam que ele bebia. Ele andava confuso. Não queria ficar com as crianças. Pensava que Ângela estava escondendo algum segredo. Talvez ela escondesse dinheiro, o dinheiro estava acabando rápido demais.

Um dia, um dos gêmeos amanheceu com forte febre. Morreu em menos de vinte e quatro horas depois que os médicos detectaram a pneumonia. Ângela não conseguia parar de chorar. O irmão foi levado para a casa da avó materna. João Paulo não entendia o que havia acontecido. Alguém matou seu filho. Teria sido Ângela, que escondia dinheiro? Onde estava o dinheiro? Por que ela não parava de chorar? Por que gritava com ele? Ele estava sofrendo, mas não conseguia expressar seus sentimentos. Ou não estava sofrendo? Ele não sabia dizer. Só sabia que os gritos o deixavam transtornado. A cidade inteira estava gritando com ele. Todos o olhavam de forma estranha. Era suspeito? Estariam suspeitando que ele matou o próprio filho? Não foi a febre?

João Paulo não sentia mais nada, nem tristeza, nem remorso. Lembrou de ter levado o menino para tomar banho na banheira, ficaram brincando, a criança sorria e ele cansado foi dormir. Alguém deve ter tirado o menino da banheira. Ângela não estava em casa, mas sempre chegava e cuidava das crianças. Alguns fragmentos de lembrança surgiam. Ele nem sabia mais o que era lembrança, o que era imaginação. Quando sonhava, não tinha certeza se era sonho. Uma cena ele desconfiava que fosse real. Ângela caída no chão, com olhar apavorado. Ela levantou com dificuldade e o mandou embora de casa. João Paulo não tinha mais casa. Ficou andando pela cidade por horas. Pegou um ônibus em direção a São Paulo.

São Paulo era uma cidade grande, cheia de oportunidades de trabalho. Ele se assustou com a quantidade de pessoas na rodoviária. Perguntou onde poderia procurar emprego de pedreiro. O mandaram a um escritório próximo à Praça da Sé. A Praça da Sé ficou sendo seu lar, por um tempo, muito tempo. Perdeu seus documentos, não tinha nada. Fez amigos na rua, adotou um cachorro. Perdeu o cachorro. Revirava o lixo procurando comida. Dormia no chão. Dormia nos bancos. Tomava café, que os amigos traziam de manhã cedo, com um pão francês. Entrava na catedral. Tentava rezar, mas não se lembrava de nenhuma oração. Passava horas sentado no banco da praça. Catatônico. Ganhou uma sacola do padre. Nela havia um caderno e uma caneta. Como o padre sabia que ele gostava de escrever? Talvez tenha conversado com ele. Outro dia o chamaram de João, mas ele não sabia o porquê.

Quem era João? Ele havia sonhado com um grande ipê florido, queria saber onde ficava. Sonhou que lá era um lugar mais seguro para morar. Não apanharia de ninguém e não teria que sair correndo da polícia ou das pessoas que gostavam de roubar sua comida. Cada dia era um recomeço e também uma continuação. Quanto tempo havia passado? Ele não lembrava, lembrava apenas do frio, do calor, da chuva. Das pessoas que o ajudavam e das pessoas que o roubavam. Passou a andar acompanhado, era mais prudente. Ele não sabia o nome do novo amigo, mas estava sempre bem vestido e era divertido. O fazia rir. Contava histórias, o animava, dava ideias. “Vai procurar o lugar que você sonhou! Não fica aqui, não é seguro!”

Seguindo o seu conselho ele caminhou por ruas e bairros a procura do ipê rosa e do lugar para construir sua nova casa. Caminhou por alguns dias até encontrar a rua Vergueiro. Foi quando seu amigo apareceu novamente e disse: “Vê aquela esquina? É lá!” Ele reconheceu o ipê ao lado de uma pequena roseira. E lá ele construiu sua nova casa. Comprou alguns cabos de vassoura para sustentá-la, tinha tudo desenhado em sua mente. Com o dinheiro que conseguia vendendo latinhas e varrendo a praça para o dono do bar da esquina ele comprava material para a construção. Seu amigo estava certo, era aquele o seu lugar. Passaram-se semanas, talvez meses. A vida seguia com certa paz. Contemplava a roseira e o ipê por dias. Olhava desconfiado para as pessoas que passavam sempre apressadas. Via que muitos ficavam admirados com a sua cabana. “Que bem-feita!”. Algumas pessoas não gostavam de vê-lo lá. “Que absurdo!”, diziam.

O outono, enfim, chegou. As flores dos ipês caíram, as da roseira também. A cabana continuava lá, vazia, há dias. Dentro dela, a sacola com o caderno todo manuscrito. Eram poemas. Ninguém havia lido até então. O caderno e a cabana eram tudo o que ele tinha. Para onde fora? O homem sem nome. O homem da rua. O homem sem teto, sem história. Invisível.

Christiane Angelotti é editora de Literatura Infantojuvenil e de Educação, e criadora do site Para Educar.