oficina

O meu namorado Joe
— que é como ele gosta de ser chamado —
Está anos luz à minha frente
Ele me diz: “Você é estúpida como uma toupeira!”
Ele me diz: “Fica de quatro pra mim e me dá esse rabo agora!”
Largo o que estou fazendo, me posiciono feito a potranca do Tio Fred
E espero bem paciente que o Joe acabe o serviço
Coisa que eu sei fazer bem, pois fui treinada para isso
Todas as vezes que nosso pai chega emputecido em casa
Tanto eu quanto minhas irmãs
Largamos o que estamos fazendo
E ficamos prontas para servir nosso pai
E sem essa de me fazer de distraída mascando feno
Como se não fosse comigo
Isso o Tio Fred aguenta, mas o meu namorado Joe detesta
Tenho que urrar e rebolar até que ele dê o serviço por encerrado
Isso acontece quase sempre
Tem vezes, estamos no carro, simplesmente ouvindo música
Joe arreia as calças, enfia os dedos pelos meus cabelos
E me agarra bem na nuca
Então me empurra com tudo e me faz cair de boca
Mais ou menos o que fazem meus primos com as garotas
Na piscina do clube, entre risos e muita diversão
Afundam as cabeças das garotas
Até elas quase perderem o fôlego
Joe me diz: “Engole tudo! É assim que as boas garotas devem fazer!”
E ali mesmo, com a cabeça presa entre suas pernas
Trato de fazer a coisa direitinho
Melhor do que qualquer garota
Nem reclamo, nem me engasgo, nem nada
Saio triunfante com o rosto em brasa e os lábios vermelhos
Como quem se salvou de um afogamento
Nenhuma gota escorre pras pernas de Joe
Nenhuma baba na minha blusa
“Engole tudo e deixa de choro!”
Esse é um conselho que eu escuto desde pequena
“Seja uma boa garota, sua merdinha!”
Sempre foi bem comum ouvir esse tipo de coisa

Penso que é uma espécie de treinamento
E Joe com certeza teve também o seu treinamento
— de um modo diferente, claro…
Ele segura minha cabeça com os dedos bem abertos
Como se fosse uma bola de boliche
Depois empurra e empurra
A ponto de eu quase sufocar

O pai de Joe deve ter levado ele muitas vezes ao boliche
E ensinado a agarrar com a mão bem aberta
Uma bola pesada como uma cabeça de mulher
E deve ter ensinado pra ele o jeito certo de lançar
Pra ela bater com força no chão e sair rolando pela pista
Até derrubar todos os pinos
Ai do Joe se ele não tivesse jeito pra coisa
O pai dele teria ficado decepcionado
Os caras do boliche iam comentar e rir às escondidas
Isso ia ser constrangedor para o pai do Joe
Com certeza ele morreria de vergonha
E quebraria o Joe de pau até ele se endireitar
Mas Joe leva jeito pra coisa
Ele me diz: “Engole tudo, garota!”
E empurra minha cabeça como quem agarra uma bola de boliche

Joe está anos luz à minha frente
Assim como todos os caras que frequentam o clube
Assim como todos os caras do boliche
Para isso eles todos foram treinados
Eu fui treinada para engolir tudo

Assionara Souza. Escritora, nascida em Caicó-RN e radicada em Curitiba-PR. Formada em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, é pesquisadora da obra de Osman Lins (1924-1978). Publicou os volumes de contos Cecília não é um cachimbo (2005), Amanhã. Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011) e Na rua: a caminho do circo (2014) — contemplado com a Bolsa Petrobrás, 2014. Sua obra tem sido publicada no México pela Editora Calygramma. Participa do coletivo Escritoras Suicidas. Idealizou e coordenou o projeto Translações: literatura em trânsito [antologia de autores paranaenses: www.literaturaemtransito.com]. Estreou na dramaturgia com a assinatura da peça Das mulheres de antes (2016), com a Inominável Companhia de Teatro.