um conto e um poema

blues na marginal

Quase 6 da tarde, a menina sentada na calçada olhando a marginal chora compulsivamente. Vejo de longe, atravesso a rua, pergunto o motivo. Nada importante. Deduzo um fim de namoro. Me sento ao lado dela, ignoro o cheiro do esgoto, ofereço uma pastilha. Ela aceita e chupa o doce, agradece enquanto limpa o nariz. A coriza escorrendo. Contemplamos o céu de São Paulo disputado por helicópteros. Pergunto onde ela mora, e ela responde que veio do Nordeste pra ser bailarina, quer trabalhar no teatro municipal. Reparo no perfil magro e procuro o joanete no pé. O corpo inteiro ainda soluça de desgosto. Deve estar com saudade de casa. No trânsito, um carro avança o semáforo e para na nossa frente: um homem acena. Deve ser um tarado, ela hesita e levanta. Eu acompanho o movimento, pronta pra ir embora. Pergunto novamente o porquê daquele choro. Ficou desempregada? Está sofrendo com a distância? Foi traída? Tento adivinhar no catálogo de motivos. Ela me responde com o canto da boca: “meu choro é ritual de cura, não precisa de tristeza, acontece toda quinta, em travessia movimentada, expurgo a mágoa mais discreta, evito que ela aumente, de vez em quando lavo a melancolia e coloco pra secar no vento, outras vezes só agradeço, eu choro porque existo e a lágrima me purifica”. Fiquei em êxtase no meio da metrópole mais pragmática da América Latina. Voltei pra casa atrasada, tropeçando nos outros, mente distraída. Ando anestesiada, o peito estufado de tanto sentimento que não demonstro. Próxima semana vou voltar a ouvir The Smiths e ver um filme do Woody Allen, penso antes de entrar na padaria.

terceira guerra

não há nada melhor
ou mais urgente
a ser feito
senão tomar sol
na faixa de areia
que surge
antes do tsunami.
não posso calar Donald Trump
não posso esconder bomba atômica,
mas o poema cava um bunker
no meu peito aflito
sobrevivente de guerra
no gueto dos poetas perdidos.

Tassyla Queiroga tem 30 anos, paraibana, é poeta e escreve seu primeiro livro de poemas, sobre o exílio. Atualmente, mora em São Paulo, a cidade louca dos seus sonhos neuróticos. Coleciona diários e envia declarações de amor pelos correios. Dançante de flamenco e aprendiz de bailarina.