dois minicontos

delírio

Depois de horas seguidas de vigília, adormeci profundamente abraçado ao fuzil. Não demorou para enredar-me num sonho delirante na caatinga esturricada: grandes pingos de chuva levantavam poeira em volta da casa onde caíam, cintilavam ao luar e desabavam sobre a varanda de zinco da casa com som de metal percutindo em metal. Parecia quando seu Almino jogava pregos sobre o prato de cobre da velha balança de sua bodega para vender a meu pai. Era tanta felicidade com a chuva que minha mãe apareceu correndo no terreiro, berrando a plenos pulmões. Na tropelia de suas palavras não distingui o que dizia, no aguaceiro noturno destacavam-se os braços agitados, eufóricos, no ar.

Chegou perto de mim, o rosto em transe, sacudiu-me e acordei com seus gritos lancinantes entre os tiros: os cangaceiros estão chegando!

também se morre em belos dias

Klaus propunha um mundo igual para todos. Por tanto chamavam-no comunista. Pessoas como Klaus, embora raras, formavam um grupo aguerrido capaz de multiplicar-se em ação e levar o povo à luta. Para eliminar riscos, cada um deles tinha que ser sacrificado. Era a implacável política de Estado. Caçado como se caçam ratos, Klaus foi preso no porão da cervejaria em que se refugiou na Munique daqueles tempos.

Pensou em enfrentar seus algozes de cabeça erguida, abaixaram-na com tortura. Seus gritos, misturados aos dos outros que sofriam em celas contíguas, formavam ondas varrendo os corredores das masmorras da polícia política. Seus algozes deixavam os cubículos extenuados, camisas pingando suor apesar da temperatura gelar os tijolos das paredes do subterrâneo.

Klaus acreditou por muito tempo que sua prisão era um equívoco.

À luz de um belo dia um caminhão entrou na viela dos fundos da prisão. Era incomum o trânsito de gente ali, e quem passava achava adequada a truculência dos guardas com os prisioneiros numa sociedade em busca da purificação. Klaus cambaleou na rua quase deserta sob céu azul e brilhante. O ar puro inundou seus pulmões maltratados. Uma centelha de esperança brilhou em seus olhos e iluminou sua mente ao ouvir pássaros cantando perto. Acreditou na libertação imediata porque imaginou impossível qualquer execução em dia tão lindo. Só não sabia que seus algozes estavam cegos.

jjLeandro (1960, Carolina-MA) é jornalista com graduação pela UFG (1983), autor de quatro livros: Quase Ave (poesia, 2002), Babaçulândia (ensaio histórico, 2008), A morte no bordado (romance, 2009), Memórias de Petelico (romance, 2011). Premiado como poeta inédito pelo Instituto Goiano do Livro com Quase Ave e duas vezes pela Fundação Cultural do Tocantins com os romances A morte no bordado e Memórias de Petelico. Mora em Araguaina-TO.