postiço

Me deprimem as heroínas dos mortos. Os meus sentimentos: uma flor receio, quando tudo só instinto. O pano que lhe não desço à frente, talvez. Um livro que seja a pôr no lugar amanhã, o louco sem verdade. Tinha mais olhos que alma, feridas pois as coisas. O papel principal; convertido o sangue em prisão de pó. Nem o nome eu tenho seguro, à força de rejeitar dignidade. Medo só de um rosto e algo nesse rosto entregue, injectado de um vulgar nada. Adeus, ou não houvesse tempo, instinto, qualquer coisa. Uma frase a traçar os ombros. Nada contra um dia, tê-lo aqui um dia. Sentemo-nos então, sobre a turba de lábios a repetir as pessoas, um par de horas; os seus dedos, a voz surda. Mecânicas de ir embora a dias, ocupado em pormenores descoloridos. Cravado no rosto inclinado, puro terror por ter chegado às horas escuras ao meio de um branco inteiro. Mãos perversas, deliciosas pétalas de imoralidade. Deuses comuns nos impingem a coragem de sermos uns quaisquer. Jogamos nós a cigarros, acendendo as trevas com a tara perdida.

A casa da voz, um poeta do egoísmo artificial. Narrando a precisão do céu. O coração pesadamente postiço, como fogo calado. Belos olhos, enegrecidos com a adição betuminosa do caminho melancólico, escarificados de imprevisto. Pilares pesados, do tecto ao rés-do-chão, atravessando este olhar de esquinas quebradas.

Luís Chacho cresceu entre Lisboa e a Outra Margem. Tem 43 anos. Publicou o poema Aqui Del(ete) na colectânea poética O Desejado. Robot Bimby (organização de Jorge Corvo Branco. Companhia das Ilhas. 2015). Escreveu a letra da música Gelatina, dos Duble Dread, e o texto adaptado ao videopoema Sonho Brando (em colaboração com Rafael Teles), que integrou o projecto multimédia internacional HearteartH. Viu textos seus saírem pela Enfermaria 6. O que escreve (e fotografa), pode ser encontrado no blog http://cimento-cola.blogspot.pt/