a gestação de um pai

Os filhos amam a mãe desde o início, mas o pai, o pai os filhos
têm de aprender a amar porque sempre estiveram fora dele.
(João Carrascoza)

É verdade, nunca vi teu rosto, tua pele, teus olhos. Mas o que sinto é algo que tenta se ajeitar nas minhas frestas e acaba vazando. Primeiro, pelos olhos: o líquido a escorrer rosto abaixo e salgar os lábios. Segundo, pela boca: as palavras trôpegas de um homem que nunca falou com alguém cuja carne é fruto da carne dele. Mas eu falo. Falo e sei que tu me escutas. Sei que reconheces na minha voz o veículo do afeto. Tua mãe está deitada no sofá, exibindo pra mim a parte de fora da tua casa. A barriga que te carrega, apesar de pouco mais da metade do tamanho previsto, é tão plena, tão cheia de ti! Creio que concordarás comigo quando vires as fotografias.

Ontem confirmamos o que sabíamos pelas artérias da intuição: tu és Antonella. Conforme a médica passava o aparelho pela barriga intumescida, tu ias te construindo na tela preta. De repente, te mostraste completa como um deus. Ou melhor, deusa. Tu, naquela sala esbranquiçada, me gritaste que não serás princesa ou boneca. Tu, como carregas no corpo — ainda em formação — o sangue da tua mãe, hás de ser como ela, Atena ou Tanit, a levar o presente nos dentes e o futuro no peito. Tua mãe, que agora coloca minha mão em ti, é a mulher com quem pretendo ver-te crescer. Tua mãe que, antes de ser tua mãe, é minha esposa e antes de ser minha esposa, é mãe do Arthur. Mas antes de ser mãe do Arthur é mulher. A mulher que soube transformar em palco as pedras do caminho. Agora me pego a perguntar ao tempo sobre o desenho que ele fará de ti. Provavelmente, terás da tua mãe os cabelos cacheados e os olhos verdes. O formato do nariz, delicado feito a lágrima de uma idosa, pude ver ontem graças à tecnologia.

Ela está chutando, amor. Sim, tu já respondes, Antonella. Saber que os dias tecem camadas de humanidade em ti me leva a pensar, toda noite assim que entrego a cabeça ao travesseiro, em nosso primeiro abraço. Me faz imaginar a primeira estória que te contarei. Me faz pensar em teus primeiros passos, teu primeiro dia de aula, tua primeira desilusão amorosa. Talvez meu colo não esteja disponível em todas as tuas primeiras vezes, talvez a poeira da rotina se assente entre nós. Mas, se isso acontecer, cuidarei para que o espanador esteja sempre ao nosso alcance.

No momento em que soube da tua vinda — tua mãe me enviou a imagem “eu já amo o papai” pelo celular —, minhas pernas se transformaram em estrangeiras do corpo. Não soube o que responder, a mensagem de volta foi, no mínimo, estúpida. Contudo, depois de alguns minutos, minhas costelas pareciam mais estufadas que o possível. Queria gritar, minha filha, queria abraçar o instante, queria mergulhar em tua mãe pra beijar o que se tornaria tu. Teu irmão, logo que soube, começou a conversar contigo, dizer que te ama e que cuidará de ti. Será com ele que descobrirás algumas das entrelinhas da vida. Teus avós, teus tios, os amigos do teu pai e da tua mãe, todos já te envolveram numa manta de carinho. E eu, Antonella, estarei a vida toda a remendar esta manta, caso ela se desgaste.

Filha, é bom que saibas: o ser humano não é como o apresentam nas histórias de herói. Às vezes, ele pratica o mal em nome da justiça, às vezes diz uma coisa e faz outra, às vezes enterra um punhal no peito de quem ama. É bom que saibas que, enquanto algumas pessoas apanham migalhas para tapar os buracos do estômago, outras descartam comida como se fosse água barrenta. É bom que saibas que há pessoas que julgam importante a cor da outra pessoa e o que ela carrega nos bolsos. Saibas, Antonella, que, por seres mulher, o mundo, diversas vezes, vai te esfregar a proibição nas vistas. Vai te trancar portas e podar possibilidades. Vai esconder por trás de discursos coerentes o cimento que ergue a intransigência.

Não, não quero borrar tua visão com meus juízos. Não quero mostrar-te apenas a parte suja dos fatos. Estou certo de que não te assustarás com minhas palavras, mas as usará como combustível pro teu combate diário. Além disso, tu provarás, feito um faminto, a porção suculenta da vida e, com ela, lambuzarás a alma. De alguns destes momentos, sei que vou participar. Passearemos no parque em muitos finais de tarde, iremos ao cinema, falaremos sobre as danças da existência e, com tua mãe e teu irmão, chegaremos à ousada conclusão de que a vida, justamente pela ausência de sentido prévio, tem o vigor de uma bailarina.

Observando tua mãe que cochilou há alguns minutos, filha, pula-me à mente o sono do qual não conseguirei escapar. E o imagino sem muitos pesares. Tu sentada na cama a falares com teu pai que já não fala, sorrindo pela lembrança da nossa biografia entrelaçada. Eu com o peito repleto ao recordar dos momentos em que colorimos a vida. Nós a sorvermos os instantes que restam como se usássemos os pulmões de Cronos.

| conto inédito do livro Amortalha, que será publicado em outubro pela Ed. Patuá |

Matheus Arcaro (1984) é professor de Filosofia, artista plástico e escritor com dois livros publicados: Violeta velha e outras flores (Ed. Patuá, 2014) e O lado imóvel do tempo (Ed. Patuá, 2016). Tem textos no Mallarmargens e na Germina. Além disso, é colunista dos portais Língua de Trapo, Educa Dois e LiterturaBr.