buracos

Nova Lima, cidade das viúvas. Faz um tempinho, ouvi isso em um programa de tevê. Por causa dos homens mortos na mina e dos homens mortos em consequência da mina, intoxicados com a sílica nos pulmões. Penso no meu bisa, no meu avô, no meu pai, gerações de trabalhadores cujas almas, até hoje, devem estar vagando nos túneis. É natural que esta terra, onde se plantaram tantos mortos, tenha virado também a cidade das assombrações. Vemos e ouvimos de tudo. O arrastar da corrente de um escravo na casa grande onde morou o dono da mina, conversas e gritos vindos das minas desativadas, noivas que perderam os maridos em acidentes e toda sorte de fantasmas andando nas ruas à noite.

Tudo isso era previsível. Dizem que os espaços também se traumatizam com as dores dos homens, e um dia reagem, colocando pra fora as memórias. Só não esperava que Nova Lima se tornasse, um dia, a cidade dos suicidas. Isso me pegou de surpresa.

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Lembro de quando o buraco se abriu. Na calçada entre a padaria e a agência bancária. O diâmetro pequeno, um metro no máximo, e uma profundidade incalculável. As pessoas interrompiam o fluxo e rodeavam a fenda, curiosas. Do buraco saía um ar muito quente. Lá embaixo, bem nas profundezas, um laranja flamejante.

O fenômeno mobilizou Nova Lima. Os jornais gravaram reportagens. Vieram geólogos e turistas de toda parte. Ninguém soube dizer o que estava acontecendo. Algumas hipóteses relacionaram o buraco com a mina de Morro Velho. Talvez o fundo de sustentação da cidade estivesse oco. Poderíamos ser sugados para o centro da terra a qualquer momento. Falaram também em um vulcão subterrâneo. Um vulcão acordando após séculos de inatividade.

As especulações aumentaram o interesse das pessoas. Os comerciantes intensificaram as vendas, a prefeitura investiu em marketing e o buraco iria se tornar um patrimônio municipal, uma fonte inesgotável de lucro, se a mulher não tivesse se matado. Uma nadadora americana, descobriram mais tarde. Tomou impulso no outro lado da rua e saltou de ponta rumo ao fogo.

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Não sei se isso tem a ver com os fenômenos recentes. Tenho lembrado daquele dia. Mais do que normalmente me lembro — e me lembro sempre. Acordei com o celular na mão, dez minutos atrasado. Mandei um sms para o vizinho, meu carona, dizendo que não precisava me esperar.  Joguei água no rosto, tomei café, sem muita pressa, beijei a mãe e saí.

A escola longe de casa, o ônibus agora o único meio de transporte. Lembro de ter buscado a moeda na gaveta: um real, a tarifa do buzão. Joguei-a para dentro da calça: uma jeans meio surrada, mas sem buracos.

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Depois que a garota mergulhou no buraco, o prefeito mandou interditar a área. Tampou a fenda com uma placa de ferro. Tivemos alguns dias de paz. Selado o buraco, Nova Lima saiu da mídia e os turistas começaram a riscar-nos do mapa de novo, escolhendo outros roteiros exóticos para suas férias.

Então surgiu o segundo buraco, em frente à escola Augusto de Lima, e depois outro, num bairro mais afastado da região central, e depois outros, tão profundos quanto o primeiro, de modo que Nova Lima voltou ao centro das atenções e os buracos nova-limenses entraram nos trending topics do Twitter. Do aeroporto de Confins, estrangeiros pegavam o táxi direto para a cidade dos buracos. Nossos hotéis superfaturaram, os preços dos restaurantes subiram muito e as famílias começaram a fazer uma grana extra alugando quartos de suas casas.

Se já era difícil transitar nos passeios estreitos da Melo Viana antes de virarmos ponto turístico, agora era como andar em uma cidade em eterno carnaval.

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Quando pisei na avenida, vi o ônibus arrancando. Corri demais, alcancei o veículo, soquei a porta, berrei, tentei chamar a atenção do motorista e ele não quis parar. Lembro que o cara ria de mim, mas não sei, francamente, se ele riu. A memória tende a reforçar nossos sofrimentos e demonizar as pessoas que nos foderam em um processo contínuo de canonização do ego. Recordo também os rostos nas janelas, os colegas da escola, entre compadecidos e debochados.

O ônibus ganhou velocidade e me deixou pra trás. Decidi ir a pé, gritando com vontade qualquer sujeira em sintonia com a turbulência do espírito.

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Nova Lima caiu nos sites de teorias conspiratórias. Surgiram de tudo: hipóteses científicas a religiosas.  Um dia, a caminho do boteco, atravessei a fachada de uma igreja e ouvi o pastor dizendo que os buracos eram armadilhas de Satanás.

Como normalmente acontece, a teoria mais estranha foi a que mais rápido se viralizou e ganhou adeptos em todo o mundo. De acordo com ela, os buracos de Nova Lima não se abriam a troco de nada. Abriam-se por alguém. Abria-se, com o buraco, a oportunidade de colocar termo no próprio destino e entrar para a história da cidade.

Se uns vinham tirar selfies, outros vinham morrer. A prefeitura reforçou a guarda municipal e se empenhou em fechar os buracos tão logo se abriam, mas antes de ser identificado e selado, um buraco engolia dois, às vezes três suicidas.

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Presenciei muitos saltos. O primeiro me colocou em estado de alerta.

Estava na praça, jogando baralho com amigos, e vimos um buraco se abrindo no chafariz desativado da praça. Foi a conta de dizermos porra, mais um e notarmos um turista japonês deixando cair seu sorvete no chão e correndo ao encontro da morte. Um vendedor de bolinhos de bacalhau entendeu a situação e tentou agarrá-lo. O japonês desviou do abraço, gritando coisas que obviamente não compreendemos, e se foi.

Desde então, tem sido difícil pegar no sono à noite. Nós, os nativos, viramos estrangeiros em nossa própria terra. A vida ganhou um clima pesado de estranhamento. Agora era preciso andar de olho no chão, desconfiar da mínima rachadura no asfalto e vigiar os turistas.

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Vinte minutos de caminhada no acostamento da avenida, a camisa empapada de suor. Estava decidido a xingar motorista, passageiros e trocador até chegar à escola, e talvez continuaria xingando-os depois que chegasse, em pensamento, durante as aulas.

Mas logo a raiva virou fumaça. Avistei uma movimentação estranha na ponte e acelerei os passos. Carros estacionados, um trecho da passarela danificado, um buraco na cerca, marcas de pneus na estrada.

Cheguei e confirmei o que me vinha na mente como uma chance remota.  Lá estava o meu ônibus, o que restou dele, nas margens do rio, queimando nas pedras. As pessoas se aproximavam e eu dizia o mesmo para todos os curiosos, depois para os amigos, depois para os jornalistas:  aquele ônibus em chamas era o meu escolar e os mortos, meus amigos. Se eu não estava lá embaixo, torrando o corpo e a alma, não tinha sido por falta de tentativa.

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Gostaria de fazer algo pelos homens e mulheres que desembarcam em Minas Gerais a cada dia e se deixam levar pela música sedutora dos buracos. Infelizmente, nenhum anjo desceu para me indicar o caminho e, até hoje, nunca salvei ninguém. Aguardo, como sempre aguardei, as informações sobre minha grande missão sobre a terra.

Cresci sendo tratado como um ser privilegiado. Diziam que eu não havia sido poupado em vão do acidente com o ônibus. Que ainda faria algo especial nesta vida e baboseiras do tipo. Nos últimos anos, perdi minha esposa para o câncer, meu cachorro para a leishmaniose, minha filha para um intercâmbio.

Hoje em dia, a única coisa especial em minha vida tem sido a cerveja de trigo que tomo às quartas-feiras no bar do Reginaldo enquanto vejo o jogo na tevê. Até bem pouco tempo atrás, fazia isso sozinho e sem amolações de estranhos. Com a multiplicação dos buracos, o bar ficou cheio e sonoro e, além dos turistas, têm aparecido uns companheiros das antigas com quem até converso e jogo baralho.

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Agora estou indo para casa e vejo em tudo uma consistência de sonho: um poste que pisca, outro que se apaga, um terceiro de luz tênue e amarelada que dá às ruas uma aparência de fotografia velha. Coisas assim, que percebemos quando estamos atolados nas lembranças e com bastante álcool no sangue.

Não olho mais o chão. Tenho a cabeça erguida como um contador de estrelas. Não partilho mais o horror dos meus conterrâneos com a situação da cidade. Um vizinho, por exemplo, levou a sério essa história de estarmos em cima de um vulcão. Enquanto ajeita a mudança, proibiu os filhos de saírem às ruas.

Quanto a mim, só o acontecido me assombra. Tenho pensado muito no incidente da juventude. O fato de ter escapado de uma tragédia e não ter feito nada que mereça registro, nada de grandioso ao longo desta vida.

Jogo a garrafa de cerveja na lixeira e noto que lá na esquina, a uns quinze metros de mim, um novo buraco está se abrindo. Se instala bem diante da farmácia, de modo que os clientes e funcionários terão que dar um belo salto se quiserem entrar no estabelecimento ao longo do dia.

São quatro horas. Não vejo carros, nem turistas, nem ninguém. Somos eu e o mundo rompido lá adiante.

Acendo um cigarro, trago a fumaça e vou caminhando, sem saber ao certo se o buraco está ali por mim, se ando na sua direção ou na direção de casa, e se estive aqui, durante tanto tempo, apenas aguardando por ele.

| conto publicado originalmente no livro Naufrágio entre Amigos (Editora Patuá, 2016). |

Eduardo Sabino nasceu em 1986, na cidade de Nova Lima, Minas Gerais, onde vive atualmente. Publicou os livros de contos Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias (Editora Novo Século, 2009) e Naufrágio entre amigos (Editora Patuá, 2016). Com o conto “Sombras”, venceu o concurso Brasil em Prosa 2015, organizado pelo jornal O Globo e a Amazon. É colunista do portal Literatura BR e um dos criadores do canal Literatura no Boteco, disponível no YouTube. Contato: eduardosabino@caoseletras.com.