afogados

É água pura a primeira coisa que você coloca no copo e bebe quando acorda. É água e ácido úrico que se misturam à água da privada que leva para os esgotos os detritos recusados por seus intestinos. É água que escorre da torneira e umedece a pasta menta no momento em que a escova rasga seus dentes e tira cheiro e o gosto de sêmen na boca. É água morna a limpar os resíduos de sono no canto dos olhos não sonhados. É água fria e sabão que despertam seus músculos adormecidos depois do sexo e leva da pele o sal do suor seco. É água fervente, açúcar e café que se derramam numa xícara para te aquecer o peito e dar coragem de enfrentar mais um dia. É água de colônia que você usa na orelha e no pescoço antes de sair e deixar um pouco de sua presença. É água lá fora que te obriga a levar o guarda-chuva para não se molhar, para não ficar resfriada, para não pegar uma gripe ou qualquer praga que mãe costuma rogar. É água cada poça que seus pés encontram pelo caminho que acompanho por pensamento pelas ruas de faíscas metálicas dos automóveis, trajeto sujo e turba. É água e cloro seu ganha pão e onde você distribui seus primeiros e últimos sorrisos falsos do dia que traça de uma raia à outra seu roteiro de sobrevivente aquática. É água e cais o lugar por onde de vez em quando saio e caio pelas tardes em bares ou num Café a beber camomilas e tarjas-pretas de uma noite longa e uma vida curta. É água ou qualquer coisa branca que extraio da mão ao reinventar um prazer proibido, escondido entre as pernas, dentre os lençóis de uma cama que pode me segurar o dia inteiro acompanhado apenas por um livro e a espera de seu retorno para juntos abrirmos latas de água e cevada, talvez me levante e escreva algo antes de você chegar, antes do ciclo cotidiano recomeçar. É água e sal que me escapam aos olhos ao sentir que me afogo em meio à maré de suas águas como uma Andrômeda acorrentada na orla do mar preste a ser devorada por monstros marinhos, mas sei que você não tem vocação para Perseu por seu pale blue eyes, ao pensar nisso, o desespero me conduz à janela. Abro-a. Preciso de ar.

Vinícius Canhoto é mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo e autor de Livro do Esquecimento (2014).