as sereias de copacabana

O vapor cobria os edifícios da Avenida Atlântica. Um vapor sulfúrico que irritava os nossos olhos. O calor tornava o ar rarefeito e os nossos pulmões tinham crostas sólidas que tornavam a respiração um inédito trabalho consciente. Era meio-dia e o verão já contava algumas semanas. Os fogos tradicionais do réveillon de Copacabana foram suspensos fazia uns treze anos, porque já não revelavam beleza alguma na atmosfera atual do planeta. O nível do mar subira, devido ao degelo dos pólos, e fora necessário construir recifes de concreto a cerca de duzentos metros das principais cidades litorâneas ao redor do mundo. Muitas sucumbiram e descansam suas mazelas nas águas ácidas dos oceanos. O Rio resistira, mas estava bastante mudado. Seu Cristo no alto do morro do Corcovado fora providencialmente levado para a Ilha Fiscal, na Baía de Guanabara, para que fosse visto em dias mais brancos. O Rio era como uma antiga Londres contaminada. Mas o frio dava lugar aos cinquenta graus. Os bondinhos do Pão-de-Açúcar estavam desativados. A Lagoa Rodrigo de Freitas secara e dera lugar a uma favela de palafitas sobre um mangue mal-cheiroso que impregnava toda a zona sul da cidade. Não chovia nunca, e isto era bom, porque a chuva agora incinerava os lugares onde caía. As milhares de estações para produção de água potável por meio de um processo de fusão dos átomos espalhadas pelo mundo permitiam que ainda houvesse dois bilhões de seres humanos no planeta. O alimento para toda essa gente também era produzido em processo semelhante em estações semelhantes. Estávamos no ano 2084 de Nosso Senhor.

Meio-dia e um minuto. Vejam, lá no mar, diz alguém no calçadão, parece um cardume de peixes gigantescos. Não. Não é. Olhem ali, há uma mulher na água. Ela está se afogando. A correria começa e em pouco tempo uma multidão se aglomera. Cerca de trezentas mulheres com rabo de peixe se deixam agonizar nas areias ao longo da orla de Copacabana. Carros de bombeiro e ambulâncias são chamados. As sereias soltam um grito dolente que atordoa os nossos ouvidos. Alguns homens tentam se aproveitar da situação e investem suas mãos nas partes expostas dos seus corpos, pelo menos naquelas partes onde não identificamos peixe algum, mas são atravessados pela agonia daquele grito e perdem completamente a consciência.

— Josué! Grita alguém. Acorda! É uma voz feminina.

— As sereias morrem… Murmura Josué, enquanto tenta abrir os olhos, mas a claridade o cega. Ele se levanta da areia.

— Josué, você dormiu bem umas duas ou três horas aqui na praia. Está parecendo um camarão de tão vermelho. Assim vai passar mal. Dá um mergulho, dá!

— Tive um sonho estranho, ou…

— É? Mais estranho do que aquele arco-íris sobre a Ilha das Cagarras? É lindo, não?

— Céus! Um arco-íris que se derrama sobre a ilha e forma um domo, como se existisse uma atmosfera nova ocupando aquele espaço…

— Suas palavras são as palavras de um poeta, meu querido Josué. Você tem alma de poeta. Diz a voz feminina.

— Poeta. Talvez. Um poeta diante de um mundo moralmente triste prestes a acabar.

O que aconteceu em seguida é para nós difícil de saber. Muitos foram os relatos e todos eles controversos. Escolhemos, portanto, os pontos de concordância para ilustrar os fatos.

Josué caminha em direção ao mar, mergulha e, parece, tem a intenção de nadar até a ilha. Uma onda vem se chocar contra ele, que desaparece por uns três minutos. Dois ou três salva-vidas (houve quem falasse que eram cinco) entram no mar para recolhê-lo. Nisto, uma centena de banhistas se aglomera para assistir ao salvamento. Passados cinco minutos, Josué é retirado do mar. Ouviram de sua boca que uma sereia o salvou. Ouviram também que um dos salva-vidas dissera ora bolas, esse aí me confunde com sereia e tudo, e outro que deveriam levar o rapaz ao hospital para exame, porque teria ele batido com a cabeça no fundo. Mas saber mesmo ninguém sabe muito, sequer se ele fora levado para o hospital. Do Josué, talvez fosse melhor nem dar ouvidos ao seu relato de três dias após o incidente. Estavam ele, uma mulher (a mesma voz feminina daquele dia) e outras três pessoas — dois homens e uma menina de uns nove anos —, naquele mesmo ponto da praia. Josué dizia que sim, conseguira nadar uma boa distância, até perder as pernas (são as suas palavras, talvez uma câimbra) e se afogar, quando uma mulher de indescritível beleza, e aí, incoerentemente, descreveu a beleza daquela mulher, olhos grandes da cor do sol, seios morenos e cheios, cabelos dourados, um ventre macio e rabo de peixe, estendeu as mãos para ele e disse que deveria acompanhá-la. Ela o levou até a ilha e, sob aquele domo multicor que derretia, mostrou a cidade, a Copacabana diante dele como ele tinha visto naquilo que parecera um sonho. Finalmente, a sereia pediu para ele que fizesse algo para evitar aquele futuro cataclísmico, aquele futuro no qual ela e muitas outras sereias morreriam nas areias da praia, um futuro sem esperanças também para a humanidade. Ele não soube o que dizer, apenas mexeu a cabeça de forma afirmativa. Ela então o trouxe de volta e o deixou perto da arrebentação. Depois não se lembra de muita coisa, fora tudo muito rápido. Uma pancada, o resgate, o sol no rosto, a multidão e a vontade de sair correndo da praia porque estava morrendo de vergonha dos inúmeros olhares curiosos.

— E o que você pretende fazer, Josué? Pergunta a voz feminina. Não escutamos a sua resposta. Vimos que todos riram, depois os dois homens se levantaram e foram dar um mergulho, a menina foi brincar de construir castelos de areia, e a mulher dona daquela voz beijou a boca do Josué com uma mistura de admiração, desejo, ternura e sal.

| do livro Rapsódias — Primeiras histórias breves, 2009. Versão atualizada. |

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor, editor e jornalista. Autor de Carnebruta (contos, Editora Oito e Meio e Editora Apicuri, 2012) e A construção da paisagem (crônicas, com Christiane Angelotti, Editora Sapere, 2012), entre outros. Site e Twitter.