trecho de ‘a pedra’

Um romance de Yuri Pires (Editora Lote 42).

— MEU FILHO, já lhe contei sobre Zé Onça, que pelejou com coronel Manoel Cavalcanti? Pois escute: Zé Onça era o cangaceiro mais temido dessa região e não ficava devendo nada aos cangaceiro mais famoso. A ruindade dele era conhecida daqui até a beira do cais, e dizem que ele já tinha feito um ataque a um quartel na capital. Pois bem, numa tarde de janeiro, lá pelos anos da construção da barragem de São Serapião do Vale Verde, quente que só a mulesta, começou a se espalhar a notícia de que Zé Onça tava na região. Era assim que ele chegava. Primeiro a notícia, depois ele, depois o rastro. Pois nesse tempo eu era moça lá em Santa Cruz do Riachão e nada sabia disso, só no que pensava era no namoro escondido que tinha com teu avô e na fuga que a gente tava planejando. Pai tinha dinheiro, era dos Cavalcantis, primo de Manoel Cavalcanti, foi da parte dele que tu puxou esse cabelo loiro. Ele não queria o casamento da filha mais nova dele com um nego da terra, muito menos com um nego da terra que era comunista. Comunista mesmo, de carteirinha e tudo mais. Eu não tinha tino pra entender dessas coisas, mas achava era bonita as bestage que ele dizia sobre o mundo, o sonho que tinha de conhecer a Rússia, a revolta dele contra os coronéis, inclusive contra o primo de meu pai e, por tabela, contra meu pai também. O problema era que, naquela época, um comunista era mais raro que uma Kelvinator branca, e teu avô já tava ficando conhecido na região, e corria a notícia de que Manoel Cavalcanti tinha feito um pacto com a polícia pra prender ele. Tinha botado capanga atrás dele, dado vantagem pra quem pegasse, botado prêmio na cabeça do pobre. Pensa que ele ficava com medo? Nada. Teu avô era brabo que só. Se escondeu, vinha me visitar na calada da noite, pelo meio da mata, se livrando dos espinho no meio do mundo. Pois bem, nessa época, numa das noites que eu esperava teu avô por detrás da casa de meu pai, eu vi. Só uma lamparina acesa pra uns quarenta cabras, de onde eu tava dava pra ver direitinho os rifle, os parabelo, tudo em alerta. Era o bando de Zé Onça, e eu torcendo pra teu avô faltar ao encontro. Já pensou se eles trombam com ele pelo meio do caminho? Oxe, dava certo não. Teu avô tava lascado. Apois teu avô não veio. Não porque tivesse faltado de propósito, num sabe? Alguma coisa aconteceu, tenho certeza. Eu voltei pra casa alvoroçada, nem podia contar que tinha visto o bando de Zé Onça no sítio de meu pai, senão iam saber que eu tava na mata no meio da noite. Que desculpa eu ia dar? No meu tempo, meu filho, moça direita não saía da casa do pai depois de escurecer não. Então, aí eu voltei pela janela do meu quarto, me cobri dos pés à cabeça e fiquei lá, encolhida, respirando toda resfolegada. E quedê dormir? Amanheceu e eu não consegui dormir, pelando de medo. Aí foi que a notícia chegou: Zé Onça tinha entrado em Santa Cruz do Riachão e se apossado da prefeitura e do hospital. Parece que tinha um cabra dele doente e ele obrigou o médico a tratar do infeliz. Até aí, nada diferente das história que a gente já tinha ouvido, até porque Zé Onça era coisa que dava e passava, vinha, voltava e vinha de novo, e nessa peleja ficava até desparecer quando a volante se aquartelava na cidade. Mas e Mané Cavalcanti queria deixar por isso mesmo? Queria nada. Santa Cruz tinha dono, não era terra de ninguém não. Mandou chamar meu pai, meus tios, queria juntar os capanga de cada um e expulsar o cangaceiro dali. Aí fizero o conselho, decidiro que iam chegar no hospital de surpresa e tocaiar Zé Onça matando tudo quanto era de capanga. Ia ser uma matança pra ser lembrada por séculos, ninguém devia se meter a besta nas terra dos Cavalcantis. Deus sabe que eu pedi a meu pai prele não se meter nessa matança, porque podia morrer gente inocente, mas ele ligou? Ligou nada. Disse que era assim mesmo, que se livrasse o povo, que se esperasse para evacuar o hospital, Zé Onça percebia a tocaia e fugia. Eu sei que foi bala. Foi bala pra não dever a guerra nenhuma, nem daqui nem do estrangeiro. Zé Onça nera besta não, tinha botado um cangaceiro de olho na estrada. Aí quando cercaro o hospital, Zé Onça já tava preparado e deu o primeiro ataque: só nas primeira bala já matou uns dez capangas de Mané Cavalcanti. Todo mundo da cidade corria pro meio do mato. Eu não sabia nada disso, vivia no sítio de meu pai, soube muito tempo depois. Mas fiquei nervosa. Fiquei tão nervosa que botei pra vomitar e caí de cama enjoada. Minha mãe, quando viu, não teve dúvida, porque mulher experiente sabe dessas coisa pelo cheiro: eu tava era prenha. Eita, que minha mãe ficou nervosa, disse que meu pai ia me matar, ia caçar o cabra que tinha me feito o mal. Mas eu disse quem tinha sido? Não teve quem fizesse. Por mais que minha mãe perguntasse, dissesse que se fosse um homem de família a gente podia casar antes deu botar menino, quisso podia me salvar e salvar a criança, mas eu sabia que não era assim. Não era, porque teu avô era nego da terra e comunista. Ia morrer ele, eu e a criança. A criança era tua mãe, e se eu não tivesse feito o que fiz, tu não tava aqui pra ouvir essa história. Mas o cerco a Zé Onça já durava três dias e de lá meu pai não voltava nem mandava notícia. A gente sabia pelos caminhantes da estrada. Diziam que o cerco tava difícil, que Zé Onça se defendia bem, que o armazém de Chico ficava bem atrás do hospital e os cangaceiros conseguiram pegar foi coisa lá, e que a luta ia demorar muito. Vixe, nesse meio tempo eu melhorei, mas minha mãe sabia que nada passava despercebido de meu pai naquele sítio. Alguém ia contar pra ele, e ele, que não era abestalhado nesses assuntos de mulher, ia logo desconfiar e, com um pouco de esforço, descobria que era menino e que era com teu avô. Eu não queria nem pensar nisso. Mas pensava. Hora após hora, minuto após minuto. Foi quando tua bisa teve a ideia: ia me mandar pra casa da irmã dela, em Lemuri. Lemuri, naquela época, era distrito de Santa Cruz e só tinha uns sitiozinhos. A casa da irmã dela, minha tia Augusta, era essa mesminha casa em que moramos agora. Como ela não podia ter menino, me adotou como filha e obrigou o marido a me aceitar prenha. Contaro pra todo mundo daqui que eu era viúva, que meu marido tinha morrido na briga com Zé Onça. Eu era mesmo que uma empregada pra eles, mas eu já tava muito satisfeita de não tá morta. A única coisa que me doía era não ter conseguido deixar nenhum recado pra teu avô, cuja cara nunca mais vi na vida.

Yuri Pires nasceu em 1986 na cidade do Recife, em Pernambuco. Cursou História na UFRPE — Universidade Federal Rural de Pernambuco. É autor dos livros O Homem e o Seu Tempo (2014), Fábrica de Heróis (2015) e Artifício (2016).

O lançamento em São Paulo é hoje à noite na Banca Tatuí. Saiba mais no link: http://bit.ly/banca_tatui