sabe que vai se atrasar

Atraso.

Sabe que vai se atrasar. Com certeza vai. Faltam vinte minutos. É culpa da longa espera naquela fila monstruosa que saía da lotérica e avançava pela calçada. Mas, se tivesse pago a conta e já ido aonde deveria, chegaria a tempo, sem precisar correr com a moto pelas ruas. O problema é ter escolhido percorrer a rua do sebo, mesmo sabendo que vai entrar e bisbilhotar os livros. Conferir as novidades.

Foda-se chegar atrasado. Foda-se nada, a consciência não está tão indiferente assim. Tudo bem, o atraso foi compensado pelo livro que encontrou. Houve a intuição de que algo especial o esperava naquelas estantes. Leu lombada por lombada com atenção. Se alguém o estivesse espiando, acharia engraçado os olhos arregalados, fixos, cuidadosos para não perder nenhum título. Lera tantas vezes aquelas fileiras que qualquer novidade prenderia seu olhar, como um dente de ouro quebrando o ritmo de um sorriso.

Pegou o livro sem dúvida alguma se o compraria ou não. Ninguém o tiraria de suas mãos. Enquanto retoma a caminhada pela rua, pensa não em acelerar para diminuir o atraso e sim no que escreverá como recordação da compra, talvez vinte e nove de maio de dois mil e dezessete, pago com a última cédula da carteira, só restaram moedas, poucas, não enchem a palma da mão.

Moedas de pouco valor, pequenas, menores que os olhos que o recepcionam severos em duro silêncio. Que cheirinho doce, é tudo que importa agora, as flores exalando. Respira devagar, profundo, enquanto se move lento em direção ao corpo quase submerso entre as brancas corolas.

Gustavo Petter mora em Araçatuba/SP, é professor. Mantém o blog Agradável Degradado. Tem poemas e traduções publicados na revista g.u.e.t.o, mallarmargens, Germina, Escamandro, Modo de Usar, Diversos Afins, Alagunas. Participou da exposição Poesia Agora no Rio de Janeiro.