da porta, de dentro

sobre humores ou fluidos | segunda semana bílis negra

Nas torturas toda carne se trai
E normalmente, comumente, fatalmente, felizmente,
Displicentemente o nervo se contrai
Com precisão

Vila do Sossego, Zé Ramalho

Sonhei com isso agora há pouco
Você não consegue dormir, mesmo que queira. Não existe sonífero no mundo que faça fechar os olhos. Você fica em estado de vigília constante, esperando que tudo tenha sido um pesadelo. A certeza de que não é aparece pelo resto do mundo dizendo que não foi. Todos os olhares de pena e palavras de consolação cansam, você precisa de remédios pra aguentar tudo. E mesmo tomando aqueles que fariam dormir, esquecer, estes não têm efeito. Somatiza a perda em dores de cabeça, pontadas no peito, maus-jeitos nas costas e nos braços, o que pode ser efeito das noites insones, mas você não atribui uma coisa à outra. Claro que no meio de todas as circunstâncias acima, existe, primeiro e corriqueiro sentimento, a vingança, a vontade de tomar a si a atribuição de justiçar. Coisa que não é atributo só teu, são de todos vocês. Vocês que foram privados da presença deles, do riso, da alegria inerente de quem tem só por ser genitor. Existe a vontade mas não há forças pra ir atrás, empreender caçada, nem protestos ou pedidos junto à autoridade — que eram insistentes nos primeiros dias — continuaram após certo tempo. Um que outro ainda peregrina da delegacia ao promotor, e deste ao juiz, há ainda o delegado, mas depois de um entregar ao seguinte e esclarecer suas responsabilidades, as solicitações, os mandos de que se “faça justiça” acabam ganhando uma gaveta, um armário de onde só conseguem saída com os mais insistentes, os que não conseguem acreditar, iguais a você, ser tudo real. Não fosse ter sido vítima a atriz, o caso seria esquecido por completo. E ainda existe a questão de saber se o encontro do(s) culpado(s) trará o que você almeja. Certamente não. Não é punição o que você deseja de fato. O que você deseja não te será dado, não nesta vida. Então fica o embate entre o conformismo e a indignação, mas nenhum resultado positivo e oposto a um destes restitui aquele ser. Dentro da casa vocês são fantasmas, não sabe se o outro compartilha o mesmo que você, pois não falam mais como antes depois do acontecido, o que faz pensar que o vínculo com aquela pequena criatura era o que ainda os unia. Tornaram-se desconhecidos depois do enterro. A dor pode ser a mesma atingindo cada um com impactos diferentes. Então o que resta é ficar observando aqui do alto, desta janela. Ficar olhando lá pra baixo, pro colégio que a criança frequentava, esperar que ela venha sorrindo feliz cruzando a rua e subindo pelo elevador, pelas escadas, ou que espere você descer pra buscá-la, dar um abraço cuidadoso pra não machucar e beijar as maçãs do rosto com todo o carinho e afeto possíveis. Resta essa ilusão, como tantas outras. E mesmo que você dormisse, sonhasse que estava tudo bem, que nada do que aconteceu, aconteceu, não seria pior? O que torna uma situação pior, pior? Assim, melhor contar mais um dia que você não a tem, e enquanto vê crianças saindo do colégio lá embaixo, pede que algum deus prive seus pais da mesma pena, no idêntico segundo achando que se houvesse algum deus, de fato, nem teria razão de existir tal pedido.

A nu
A menina foi encontrada como as outras. Como todos eles. Foram meninas, meninos, idades entre cinco e dezessete anos, possuindo similaridade nos corpos: as crianças e adolescentes masculinos e femininos geralmente magros, nos últimos os seios quase inexistentes como se fossem corpos dos garotos; os corpos dos adolescentes esguios, como as garotas, quase sem pelos. Tinham em comum — além dos ferimentos perfuro-cortantes (causados por uma faca, um estilete, um facão? nem a perícia tem certezas) — isto: quase sem pelos. Criaturas recém descobrindo a perversidade do mundo. Descobrindo e já esgotadas por tal saber. As meninas e moças, meninos e moços, todos foram estuprados. Os cadáveres foram localizados desovados em vários pontos da cidade — no lixão, num beco, numa obra abandonada ou não, nesse caso em horários em que não haviam testemunhas. Cruzamos os pontos de descarte pra ver se havia uma espécie de padrão, ou então se os locais estavam próximos um do outro; nada foi revelado nesse sentido. Trabalhar com tais tipos de crimes é foda. Foda no sentido ruim, claro. Não sou pai mas eu vejo a dor deles. Dá pena, muita pena mesmo. Desafiariam a nu muitos cães raivosos pra não serem privados dos filhos, fariam o que fosse preciso. Sabe, todos esses anos só me deram uma certeza: o ser humano não nasceu pra ser bom, apenas aprende a ser, mas a maldita da nossa natureza é tendenciosa ao ocaso, nosso e de quem nos rodeia. Tudo que é belo destruímos. Vivemos numa falsa felicidade, guiados por crendices de alegria que criamos, na maioria das vezes, convenientemente. Enquanto não filosofo, investigo. Fumo e tomo café com as fotos dos corpos espalhadas na mesa. Algumas bocas estão abertas em gritos audíveis só a mim.

A paz dura pouco
Existe uma falsidade inerente em crianças atrizes/atores. Mesmo ouvindo elas falarem fora do texto decorado, parecem que sempre estão atuando com frases previamente escritas. É o caso de Julieta. Seus pais gostavam tanto da peça que escolher um nome ao rebento não foi tarefa difícil. Se fosse menino seria Romeu. Julieta começou fazendo pontas em comerciais de lojas locais da cidade natal, depois a mãe decidiu colocá-la em uma agência de publicidade com sede na capital que tratou de providenciar propagandas de lojas e outros estabelecimentos conhecidos em nível estadual e nacional, com gravações, na maioria das vezes, também na capital. Na metrópole foi, após alguns testes, indicada a fazer mais testes em emissoras grandes de televisão, dos quais, ao ser aprovada, após viagens ao Rio, São Paulo e Minas Gerais, catapultou-a ao papel da filha da protagonista da novela das dez de uma delas. No país inteiro então, por cerca de dez meses, sua fofura auxiliada pelos olhos claros em heterocromia e teatralidade indisfarçadamente falsa, atribuída à sua infantilidade, dominou as tevês no horário. Depois do primeiro sucesso, a menina continuou fazendo outras novelas, um seriado e diversas propagandas, mas, como dito no início, a um analista prevenido todos os papéis, frases e atuações se resumiam a ser o que em público refletia em entrevistas. Não se dissociavam mais a vida artística da real, pela diferença de que na última ela mantinha os estudos escolares. Até que.

Vinde a mim
Da janela. Observo da janela, aqui do alto. Existe um colégio lá embaixo e quando dá quinze pras doze venho até o parapeito e miro pra lá, na direção daquelas crianças e adolescentes saindo. Consigo averiguar cada laço nos cabelos, cada tiara, cada sorriso bocó de cada figura vulnerável. Fito suas mochilas com motivos cartunísticos televisivos, suas roupas compradas com desapego e ao mesmo tempo com toda aflição financeira de dinheiro-que-nunca-chega dos seus pais ou responsáveis. Anoto mentalmente seus trejeitos, o jeito acriançado nos rapagões de quinze ou dezesseis anos e a seriedade pura nas crianças de cinco ou seis. Aguardo quando um(a) deles(as) subirá pelas escadas ou pelo elevador, trazido(a) por mim ou pelo Destino e quando tudo mudará. Pra mim e pra ele(a). Fico contente. Fico contente em poder alterar rumos tão desinteressantes.

Andrei Ribas é autor dos livros O monstro (2007), Animais loucos, suspeitos ou lascivos (2013) e Cada amanhecer me dá um soco (Bestiário, 2016). Possui trabalhos reproduzidos nas revistas eletrônicas brasileiras Plural, Flaubert, R.Nott, Pessoa, mallarmargens, 7faces, Subversa, entre outras publicações. Escreveu resenhas e críticas literárias para os sites Amálgama e Homo Literatus.