dois poemas

fluxo

de realidade nítida
há dias não acordo
tampouco durmo,
apenas observo:
há em mim alguma coisa
sem nome e excessiva
que torna a existência
impraticável, tanto pior
às duas da tarde
quando de fato são
duas da tarde
e a lucidez é tamanha
que desejar é a borda
do abismo, e sangra.

trinta e dois

tenho mais anos
que dentes:

dos dentes eu perdi
um, em golpe,

os anos eu gastei
todos, em cárie.

percorri as vias
do afeto, pelo gargalo

mas nunca tive
um cão, ou filho

nem mesmo acumulei
dinheiros, ou bens,

mas digo

se tivesse um gato,
certo seria cinza
:
não é que viver
não valha,

é só que tudo
— tudo —

exige
labuta

quando mais longa
a rota

maior a fadiga
na retina

absoluta.

Lilian Sais é doutora em Letras e pesquisadora e tradutora da área de grego antigo. Paulistana de nascença e fumante assídua por opção, é também leitora voraz da literatura brasileira contemporânea. Gosta de samba, cerveja e poesia e é defensora da boemia, de piadas ruins e das conversas descompromissadas de mesa de bar. Os amigos dizem que é uma peste, mas que cozinha bem. Ela nega.