aramaico, meu amor

É uma merda mas dá pra publicar, ele disse, logo depois de girar a chave e puxar o freio de mão, resolvi não responder mas ele arrebatou, Não é nada, me desculpa, eu li e é uma merda; fiz questão de não responder e me concentrei em olhar para a rua praticamente deserta no frame que formava o para-brisa do carro, Não fica assim, a literatura é difícil mesmo, muita gente boa já escreveu muita coisa ruim, acontece, ele disse, puxando um cigarro e abrindo o vidro da porta até a metade, Outra coisa, o teu personagem é contraditório ao revés, sabe? não sabia mas resolvi calar, me fixei no detalhe em prata do porta-luvas e comecei a arranhar de leve com a unha do indicador, Sujar um texto com sobras conscientemente é uma coisa, o teu personagem é um lavador de pratos, nunca leu um livro e parece que saiu de algum protótipo melhorado do google tradutor, sabe? ele tragava o cigarro como se faltasse o ar e como lembrava um porco na frente da direção, um porco fumante, a camisa enterrada na cintura de propósito e a calça jeans justa para parecer mais novo, Escrever em português é uma merda, o negócio é escrever em inglês, meio caminho andado, ninguém lê em português, Portugal é o cu da Europa, e o Brasil é quase o pulmão do Graciliano Ramos, aqui ou em qualquer lugar, tá todo mundo cagando; me restringi a pensar que se soubesse aramaico poderia mandar ele tomar no cu e baixei completamente o vidro da porta com o intuito de agilizar o processo para caso vomitasse, arregalei os olhos e assenti com a cabeça uma vez, Não gosto nada dessa ideia de ter que publicar esses babacas pra poder vender alguma coisa, e não acredito na redenção da arte, tu acredita? achei melhor responder que sim porque gostaria de ser artista quando tinha dezessete anos, mas calei ao fazer um movimento rápido com o pescoço que mais pareceu um não, Demorei alguns anos pra descobrir mas o que importa mesmo é o dinheiro, o resto é groselha, tenho muitos amigos escritores e artistas e não sei qual é o mais babaca, tudo uns baba ovo do caralho que nunca lavaram uma louça na vida e ficam de filhadaputice de ah a vida é foda é foda demais, sou especial demais pra viver e pra piorar acabam com pena de pobre e com a gengiva inflamada sem nem conseguir sair de casa, é foda; o cigarro já tinha acabado e ele se recostou no assento com as mãos entrelaçadas atrás da banco, Mas meu, olha só, não te preocupa, vou te publicar, só queria que tu soubesse de antemão que a literatura não muda o mundo, sabe? ele tinha uma barba rala e grisalha que lembrava um javali, e, na bochecha, uma pinta oval e gorda; de relance, dei uma olhada no pau dele, baixei a cabeça e abri o facebook no celular, ele ameaçou soltar um espirro mas se segurou na porta a tempo; e eu arrisquei, quer subir?

Tateei até a porta do apartamento e depois de abrir com dificuldade entrevi o corredor escuro, bati com a canela na primeira caixa esquecida mas encontrei a luz com relativa facilidade, Bonito apartamento, ele disse, olhando ao redor; agora já era nítida a extensão dos ombros acobertados pelo blazer cinza de botão aberto e a ostensiva barriga modelada pela camisa xadrez vermelha e preta; fui até a cozinha e ofereci alguma coisa para beber, Vinho, ele disse, respondi que não tinha vinho e caminhei até o quarto com metade de uma garrafa de uísque; tomei um golaço de cara feia e sentei na cama de pernas cruzadas, ele demorou mas me seguiu, acendi a luz do abajur, Sabe, nem te estressa, a literatura é importante, mas não é mais do que consertar sapatos ou limpar o chão de uma biblioteca, ele disse, num tom beirando o toscamente risível enquanto olhava minhas roupas espalhadas e os poucos livros atirados no chão; ofereci uísque e pedi pra ele sentar do meu lado, ele não respondeu e se abaixou em direção aos livros; imaginei o sorriso amarelo e empertigado por detrás da bunda minúscula, Esse aqui do Tchekhov é uma tradução do francês, ele disse, virando o rosto e abrindo um sorriso de dentes infantilmente brancos; me deu as cotas, de cócoras, e continuou mexendo nos livros, o pescoço quase inexistente; dei mais uma bicada no uísque, larguei a garrafa ao pé da cama e avancei na direção dos ombros largos de javali, pus meus braços ao redor do pescoço massudo e enfiei as mãos até encontrar o peito mole e peludo por debaixo da camisa afundada na cintura, Que merda é essa, velho, porra, não sou viado; ele se desvencilhou e num empurrão másculo me atirou na cama; soltei uma gargalhada gutural e deslizei os braços cansados para trás sentido a seda acolchoada na palma da mão, Olha, tudo bem, entendo, só preciso ir, não sabia que tu era, ele disse, com certo enrubescimento; pode ir, a porta é ali, disse, olhando pro teto, Olha, me liga amanhã e a gente conversa sobre o livro, é um bom livro, não vamos perder ele assim; não consegui esperar o javali terminar de falar e dei um pulo no pescoço, enlacei as orelhas com as mãos e fechei os olhos, a barriga não permitia uma aproximação sem que eu levantasse os pés e o empurrei pra parede da porta do banheiro; beijei o pescoço enquanto alisava o pau pequeno, me come forte, disse, ele não respondeu ofegante, me come, me come forte, ele tentou se esquivar mas consegui tascar um beijo na boca adocicada e senti o gostinho de tabaco até então controlado por aquela conversa de merda; ele puxou minha cintura com força e apertou minha costela com raiva enquanto rasgava minha camiseta favorita; ainda tive tempo de sussurrar isso, assim e caí na cama por cima do porco suado — ele me comeu, comeu por uma hora sem camisinha e perguntou seguidas vezes se eu tava gostando, se era isso que eu queria; me limitei a mirar a cabeceira da cama de alumínio fino e assentir uma ou outra vez com a cabeça; era um mistura de javali com porco, e eu só pensava na redenção da literatura e na madrugada de São Paulo.

Gustavo Rosa tem 24 anos e mora em Porto Alegre-RS. É escritor, poeta e tradutor.