três poemas

astronauta

Estou me rasgando às escadarias
do teu segundo nome
: criei a falácia e a sustento

Teu amor é minha valia
minha miséria meu centro

orbito em teu segundo nome
como uma carne
em movimento que fere
suas fibras

Ele é víbora
como uma quimera.
criei e nutro n’outro eu

Teu nome é secreto
vulcão na pele que é minha
é predileção
dentre os dialetos
do meu país

Encargo que carrego
imposto que me sabe o salário
exaustão é teu pranto ralo
sangro-me e calo

Assim fico em exasperado
silêncio
— quando venço eu perco —
mas meu amor é uma loucura
cega
uma faca, uma fera e uma força
voraz

escuro

Se não fosse este meu jeito
de dançar de lado
de amar travado das pernas
como um manco
precisando de uma muleta
e este teu ar de descompromisso
me olhando fixo
como quem penetra um quarto escuro
com uma lanterna
e esta tua cara quieta
me medindo, me ferindo rindo
do meu jeito tosco
de dançar de lado
e amar travado das pernas.
Se não fosse tudo isso:
eu correria o risco
de acender a luz, apagar sua busca,
trocar de música
e dançar para sempre ao teu lado.

líquido

Nunca gostei de divãs.
Nunca fui de confessar o íntimo
: o amor, por exemplo,
cultivo-o até morrer sufocado
nos nós da garganta.
Amor que cresce demais
que ramifica e enraíza
me parece distante.
O líquido me satisfaz pelo instante
que o carrego nas mãos
antes de se esvair.

Kauan Almeida tem 24 anos e reside em Santa Cruz Cabrália-BA. Já teve poemas e contos publicados na revista Mallarmargens. Atualmente trabalha em seu livro de estreia Canibais de nós mesmos.