caratê colombiano

sobre humores ou fluidos | segunda semana bílis negra

Daí fiz uma piada sobre pó com o cara lá no trabalho. Disse que estava praticando uma nova arte marcial pra emagrecer. O caratê colombiano. Todos riram pra caralho, mas ele riu um pouco e depois ficou sério, me analisando.

Agora o filho da puta não me deixa quieto. Fico resfriado ele já me olha estranho. Apareço menos gordo e ele com cara de pena. Escrevo minhas paradas de autoficção e ele mandando mensagem do Smilinguido no inbox.

Aqui cabe uma confissão. Eu também não desmenti nada. No fundo, ou nem tão fundo assim, eu tô é gostando de ver a confusão dele.

Eu falo pra ele: “Tô bem cara, só me deixa aqui em paz.”

Ele parece que aceita com resignação, mas quando menos espero vejo ele falando pros meus amigos do trabalho:

— Alguém tem que falar alguma coisa pra ele. Tá dando muito na cara. Ele tem um problema.

— Que nada. Ele não é disso. Ele gosta é de reggae, Caetano Veloso. Tem até pulseirinha do Greenpeace.

— Sei não. Todo mundo sabe que essas coisas andam juntas.

Isso já começa a me aborrecer, mas resolvi não desmentir ainda. Quem sabe ele fica com medo, resolva que não valho a pena, sei lá, e me deixa em paz.

Um dia no almoço ele veio falar comigo:

— Pô cara. Sei que você que tá passando umas coisas aí mas não precisa ir pra esses caminhos não.

— Do que você tá falando?

— Você sabe. Relaxa cara. Eu não te julgo não.

— Eu também não julgo quem gosta, mas eu não curto, porra!

— E aqueles poemas doidões lá?

— É ressaca, fluxo de consciência, mentirinhas, sei lá cara. É ficção.

— E você emagrecendo aí, com essa cara chupada?

— Como de três em três horas e faço exercícios, não tem segredo.

Ele não escondeu a decepção. Não sei se achou que eu estava mentindo, ou se preferia que eu estivesse.

— Olha — eu digo — tá bom, você me pegou. Tô nessas aí, afundadão. Mas não fica espalhando aí, sabe? Pode dar problema pra mim.

Ele sorriu e disse:

— SABIA!

Daí ele hesitou, vacilou, ensaiou pra caralho e finalmente disse:

— Também sou do movimento, irmão! Mas tô devagar ultimamente. Você pode me arranjar um aí?

— Claro. Te entrego amanhã.

Cuzudo fdp.

Agora tô aqui. Raspando um giz, quebrando e amassando balinha de açúcar, misturando com pó royal. Tô pensando em colocar uma aspirina também, e uma pitada de rivotril vencido pra dar um grau. Depois disso vou embalar tudo num saquinho velho de supermercado e levar pra ele.

Não vou cobrar nada. A primeira é de graça. Ele vai ter a trip da vida dele.

Rafael Vieira é escritor, morador do extremo de leste de São Paulo. Participou de antologias e revistas on-line de literatura com poemas e contos, sobre faculdade largadas, casamentos desfeitos e bebedeiras (que ele diz ser ficção pra evitar processo).