sobre a dona de uma história inventada

Vou dizer que era Jandira o nome dela. Não era. Era outro, um nome arcaico, antigo, tão antigo quanto a ancestralidade desconhecida que a habitava e tão apagado quanto a falta de memória própria que a anulava. Jandira não existiu como pessoa, ela resultou da soma de muitas vidas e interesses alheios e de outras mais que, assim como ela, viveram miseravelmente no que se refere a individualidade e direitos, mas que como ela nunca se deram bem conta disso. Ela, a dona desta história inventada, nunca reclamou.

Jandira não sabia quantos anos tinha, não sabia dizer quando e onde nascera, sabia sobre si o pouco que lhe contaram. Lembrava-se vagamente dos pais e sobre eles nada falava. Ela era pequena, devia ter entre oito e dez anos quando foi dada para a avó do dono da casa onde morou por último, antes de ser levada para o asilo, contrariada. Viveu nas casas de várias das pessoas daquela família, todas com muito movimento e trabalho. Teve doze filhos a mulher por quem foi criada. Criou os filhos mais novos, os netos e os primeiros bisnetos da velha. De tempo em tempo, seguia da casa de um para a do outro, conforme exigiam as conveniências e necessidades, deles.

Não faltava inteligência a Jandira, até a tinha, um tanto limítrofe, mas tinha, o suficiente para que aprendesse a executar as tarefas que lhe foram ensinadas, quase sempre com castigos físicos e muita impaciência. Aprendeu a lavar e passar as roupas segundo as exigências de cada um. Aprendeu a cuidar da casa, a fazer a comida, os doces e as quitandas com a quantidade certa de ingredientes, adoçando e temperando na medida do gosto dos donos. Aprendeu a ninar crianças, a alimentar, a brincar com elas e a lhes fazer todas as vontades. Trabalho delicado não aprendeu, não lhe foi ensinado. Ler, escrever e fazer conta, também não, quis, mas os inacabáveis afazeres domésticos não permitiam. Disseram-lhe que isso de aprender a bordar, ler, escrever e contar não é mesmo coisa para todo mundo, que é muito difícil, que ela não conseguiria e que já fazia bem demais suas tarefas. Ela acreditou, só nunca perdeu a vontade de ler, escrever e fazer conta. Mais que tudo, queria saber aritmética. Não fazia sequer ideia do que fosse, mas ouviu falar, gostou do nome. Queria saber. Decidiu que sabia.

Jandira lavou uniformes escolares durante a maior parte dos seus anos de vida. Via as moças da família saírem para o colégio. As via voltar. Ouvia quando elas comentavam sobre as aulas e o que aprendiam. Ouvia quando elas falavam em línguas estranhas, quando cantavam. Percebia o alvoroço na época dos exames. Ajudou a carregar os livros e cadernos com os quais outros estudavam. Ajudou depois a carregar o material de trabalho quando as moças começaram a lecionar. Viu tanto, ouviu tanto (por três gerações seguidas), queria tanto vivenciar tudo aquilo que assimilou como suas aquelas memórias e construiu para si aprendizado e conteúdo próprios.

Morava nas casas das pessoas da família de que era cria, nunca teve uma que fosse realmente sua. Quarto para dormir, tinha, em todas as casas, o último dos cômodos, já no quintal. A maior parte de sua vida passou com a madrinha, essa para quem foi dada quando pequena. Diziam a Jandira que ela era da família, que era como se fosse parte da família. Subserviente, Jandira aceitava o dito. Embora nunca tivesse se sentado à mesa e comesse depois deles; nunca os acompanhasse nas festas e lugares em que iam; que fosse excluída da maioria das conversas; nunca tivesse podido sair à noite para se distrair, namorar, aceitava o dito: era da família, era como se fosse.

Sendo da família, considerada como se dela fosse parte, não era empregada. À Jandira, portanto, não era devido salário. Ela era de casa. Não trabalhava, ajudava, lembravam-na sempre. Eles a lembravam ainda de que, generosamente, lhe davam casa para morar, comida boa, sabonete, água de cheiro, talco, cortes de tecido, batom, pó de arroz, rouge, esmalte, colares e brincos. Além disto, ganhava tocos de lápis e cadernos usados com restos de folhas em branco. Lhe davam tanto… eram bons, pensava ela comovida.

Segundo seu torto entendimento, os homens também gostavam dela. Os mais velhos e os meninotes vez por outra a visitavam em seu quarto, para onde conseguia ir à noite se ninguém estivesse doente e os bebês crescidinhos. Não era certa sobre se lhe agradava o que faziam. Chegavam e saiam no escuro, nada diziam, só que ela conhecia bem os cheiros de todos, impregnados que ficavam nas tantas peças de roupas por ela lavadas aos montes. Com seu pobre vocabulário, sem saber bem definir o que tinha acontecido, ela contou para a madrinha quando da primeira visita. A madrinha entendeu, no entanto, não permitiu sequer que Jandira terminasse o relato nem se compadeceu dela, pelo contrário, deu-lhe uma surra enorme, a maior delas, castigando-a severamente para que aprendesse a nunca mais inventar uma mentira tão feia. Alertou Jandira de que não mais queria ouvir falar sobre o assunto. Dor engolida. Silêncio mantido. Dizendo ser para depurar o sangue, por muitos anos, todo mês, em um dia mais certo do mês, a madrinha a fazia beber umas misturas amargas. Precaução é sempre bom, pensava a anciã.

Aquilo que de negativo se vai acumulando ao longo da vida deve mesmo ser o que mais incomoda uma pessoa. Desde menina Jandira ouviu se referirem à ela como a boba: “…a boba que eu ganhei…”, “a boba daqui de casa…”, “…a boba da minha mãe…”, “…espere, vou mandar a boba passar um café…”, pouca diferença fazia se quando falavam ela estava longe ou perto, era sempre “a boba”. Para Jandira nada podia ser pior, ela conhecia os bobos que viviam com outras famílias, sabia como eram tratados, julgava-se diferente deles. A intrigava que fosse Jandira quando falavam diretamente com ela e “a boba” quando se referiam a ela. Era ela “a boba”? Será que não era gente? Ficava pensando: será que ela era como o cachorro do quintal, será que era como o burro do leiteiro? Afinal, eles também tinham nomes e não eram gente…será? Será que ela era bicho de estimação ou animal de trabalho? Jandira não tinha capacidade intelectual para tais questionamentos, mas era capaz de sentir sua perturbação latente. Não ousava perguntar. Decidiu que não era, até porque, lembrava-se, sabia aritmética. Dava aulas de aritmética. Ensinou, assim impôs essa como sua realidade e memória construídas, a todas as pessoas que julgava importantes na cidade. A gente da casa ria dela por isto. Ela se recusava a ver e ouvir o escárnio, virava o rosto, saía de perto.

Chegou, porém, o tempo de escassas forças físicas, tempo de sua pouca valia. Morreu Madrinha, morreram os mais velhos. Os costumes, então, outros. Jandira foi deixada no asilo, para ela a mais aviltante das soluções.

Depois disso, idosa, Jandira passeava pelas calçadas das ruas com roupas limpas e bem passadas, batom mal posto nos lábios, riscos escuros nas sobrancelhas e colares a lhe enfeitar o colo seco. À tiracolo, bolsa com velhos cadernos e tocos de lápis. Dizendo-se professora, contava ter dado aulas para as pessoas importantes que nominava, ensinando-lhes regras de três e de dez, números irmãos, algarismos goianos… Revoltava-se contra sua realidade de vivente do asilo junto com outras pessoas por ela qualificadas como bobas (será que elas eram gente?, indagava-se). Enganava-se Jandira, viveu no asilo com cuidado e liberdade como jamais experimentara em sua vida. Quando morreu, a família a quem tanto serviu e que há anos não via a enterrou entre os seus, como se dela fosse parte. Um último gesto de fingida bondade? Não sei. Houve quem comentasse sobre o quanto foram bons e magnânimos a velha matriarca e os seus e sobre quanta sorte teve aquela boba. Há ainda quem comente, pude ouvir. Será?

O fato é que Jandira, a que nunca existiu, só com muita dificuldade aceitou para si a personagem para ela criada pela conveniente hipocrisia.

Julianne Veiga tem 59 anos, é de Goiás, uma antiga e histórica cidade do interior do estado de Goiás. Casada, três filhos, três netas.