a perna postiça

sobre humores ou fluidos | primeira semana bílis negra

— Pai, trouxe essa perna pra você. Quer comprar?

— Que isso, menina?

— O filho da dona Jussara morreu, não vai mais precisar. Quer ou não?

— Eu não perdi minha perna.

— Ainda não perdeu, pai. O médico falou que vai ter que amputar se você continuar comendo essas porcarias. Vai querer ou não?

— Não vou querer coisa alguma, menina. Que desaforo! Não perdi minha perna. Ela está aqui, veja!

— Estou vendo, pai. Um horror! A mãe disse que você nem levanta mais desse sofá sozinho. Essa perna aqui ainda pode ser útil.

— Ela é pequena pra mim, filha, não está vendo?

— Deve servir.

— O filho da dona Jussara tinha o quê? Um metro e sessenta? Eu tenho um e noventa, não vai servir.

— Usa muleta, pai.

— Eu não vou usar nada. Não perdi minha perna. Mulher, venha cá! Veja o que sua filha está fazendo? Quer me vender uma porcaria de perna de anão, como se eu já tivesse perdido a minha.

— O que é essa gritaria? O que foi, homem?

— É sua filha. Veja!

— Mãe, eu peguei essa perna com a dona Jussara pro pai. Ele não quer comprar. Pode ser útil pra ele em breve.

— Dona Jussara deu essa perna pra você?

— Sim, mãe.

— Por quê? Você precisa de uma terceira perna?

— Na-não.

— Por quê, então?

— Ela de-deu pro pai, ca-caso ele perca a perna.

— Essa menina tentou me vender a perna, mulher. Sua filha tentou me vender a perna!

— É sua filha também, homem. Agora, se ela deu pro pai por que você quer vender pra ele?

— Só pe-pensei… Ah, quer saber de uma coisa, fica com a perna pai. Toma! Tenho mais o que fazer.

— Viu isso, mulher? Que desaforo! Nem perdi minha perna.

— Deixa a menina, homem. O almoço está quase pronto.

— Não tem uns torresmos pra tira-gosto enquanto espero?

— Quer saber de uma coisa, homem? Essa perna postiça ainda pode ser muito útil.

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor, editor e jornalista. Autor de Carnebruta (contos, Editora Oito e Meio e Editora Apicuri, 2012) e A construção da paisagem (crônicas, com Christiane Angelotti, Editora Sapere, 2012), entre outros. Site e Twitter.