achados e perdidos

sobre humores ou fluidos | primeira semana bílis negra

Amiga, santo Uber, viu? Se eu precisasse cuidar de mim ontem, estava perdida. Nunca mais bebo daquele jeito. Sim, fui embora com o moço, o moreno baixinho. Era ruivo? Pois é, eu também lembrava dele ruivo quando a gente se beijou na festa. Ruivo, barbudo, alto. Mas a noite foi tão louca que no final ele virou moreno de cara lisa, todo atarraxado. Sei lá, também não entendi. Vamos pedir esse café e te conto tudo. Quer dizer, nem tudo, tem parte que não lembro. Apaguei, menina, logo depois de entrar no carro, deitei no banco de trás a caminho da casa dele. Oi? Quando te falei que ia pra minha casa? Eu não estava falando coisa com coisa. Abri os olhos e mal lembrava onde estava. Mas o destino era a casa dele, lá pros lados de Higienópolis. Acho que ele também tinha passado da conta. Sentava longe de mim, todo desconfortável, olhando o celular. Pouco antes a gente se agarrava. Bastou dar uma dormidinha e a gente nem se falava mais direito. O motorista ofereceu água, ele aceitou… acredita que nem perguntou se eu queria um pouco? Nossa, achei grosso. Uma hora, soltei: você deve me achar uma doida, né? Ele olhou espantado, disse não, imagine, normal, todo envergonhado. Se vacilar, estava passando mal, não faço ideia. Só sei que me bateu um bode e, quase chegando ao prédio do cara, decidi que precisava da minha cama. E sozinha. Foi o carro parar, segurei o braço dele e falei a real. Que era melhor cada um ir pro seu lado, que foi legal a gente se conhecer, mas que não era o momento certo e que, sinceramente, no dia seguinte ele nem ia lembrar do meu nome. Sabe o que ele respondeu, meio rindo? Eu não sei o seu nome agora. É, dá para acreditar? Ah, você me conhece. Eu sou calma, só não seja estúpido comigo. Mandei tomar no cu e escorracei o babaca do carro. O tiozinho do Uber me pediu calma, só que eu já estava puta da vida. Disse pra seguir até a Vila Mariana. De novo?, o senhor perguntou. E eu vou saber? Acho que tinha feito corrida pra lá pouco antes. Só confirmei e fui todo o caminho desabafando. Falei que homem não presta, que os caras se acham os fodões. Era um senhorzinho todo gentil, ouviu tudo, confirmando com a cabeça, e me deixou em casa sã e salva. Ah, teve um bêbado ruivo que me segurou quando eu ia entrar no prédio. Ele nem imaginava, escolheu o dia errado pra me encher. Acertei uma joelhada certeira nos bagos dele e fui embora. Ruivo, sim. Esse era ruivo, tenho certeza.

***

Amor, não peço mais Uber Pool sábado à noite. Você paga mais barato, mas acaba compartilhando viagem com tudo que é maluco. O que houve? Já te conto. Só preciso tirar os sapatos. Fique à vontade para me fazer uma massagem… Agora mesmo, lá na Paulista, vindo pra cá. Dividi com uma perua completamente chapada, você não imagina o estado. Pra começar, estava desmaiada no banco de trás quando abri a porta. Pensei por um segundo em me sentar na frente, mas, sei lá, entrei. Ela se ligou do mico e acordou meio desorientada. Fiquei na minha. Só que não parava de me olhar. Ah, sei lá se era bonita, não reparei, estava cansado e… ok, ok, até que era bonitinha, mas nada a ver. Sabe o mais engraçado? Fui ver no celular e não aparecia no aplicativo que eu estava dividindo aquela viagem com alguém. É, vai saber, essas coisas dão pau. Juro que fiquei afastado, sentado bem no canto, olhando pela janela. E ela me vigiando, noiada. Baita climão no carro. Tanto que, quando o motorista ofereceu água, mesmo sem sede peguei. Só pra disfarçar. De repente, ela vira pra mim: você deve me achar uma doida, né? Verdade! O que eu ia dizer? Sim, você parece psicopata, por favor, não me mate. Disse que não, claro. Fiquei feliz quando entramos na sua rua. Mas, nem te conto, chegando aqui, ao descer, ela segurou meu braço. O que eu podia fazer? Gelei. Não, foi tudo muito rápido. Ela veio com um papo de que curtiu a viagem, mas cada um tinha que seguir com sua vida e que eu nem ia lembrar o nome dela. Então, foi o que eu respondi, pô! Como eu ia lembrar se eu nem sabia o nome dela? A mulher virou um bicho. Precisava ver. Gritou, xingou, me empurrou pra fora do carro. Agora, sério, só tem maluco na noite de São Paulo.

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Pois é, doutor. Eu não dou sorte com mulher. Quando acho que elas me dão bola… Não é justo terminar minha noite nesse hospital com uma bolsa de gelo no saco. Dói, claro… Caramba, nunca te acertaram os ovos? Eu fiquei um bom tempo na posição fetal lá na calçada. E o que eu fiz? Troquei a maior ideia com a gatinha, a gente se pegou gostoso e sugeri ir lá pro meu apartamento. Eu moro em Pinheiros, a duas quadras da balada… É o ou não o mais fácil? Só que ela quis me levar pra casa dela, lá longe, na Vila Mariana. Beleza, eu estava muito a fim, topei. Até pedi o Uber! Eu sei, eu sei, tinha bebido um pouco também. E a vontade de ir ao banheiro? Levamos uns vinte minutos até lá. Talvez menos. Admito que pesquei algumas vezes. Sei que quando o carro encostou, nem me despedi do motorista. Desci do carro. E xixi é psicológico, né? Seu cérebro sabe que está chegando e te deixa com mais vontade ainda. Eu ia molhar as calças antes de transar. O que teria feito? Corri pra uma árvore grande e mijei no canto. Foi ótimo. Ouvi o carro acelerando e nem imaginei que a menina foi junto. Não entendi nada. Fiquei lá que nem um idiota pensando em uma razão pra ela decidir não descer. Será que mentiu e aquele não era o endereço dela? Ou ficou ofendida com a minha bexiga solta? Porra, doutor, necessidades fisiológicas, diz aí. Melhor que pegar uma infecção urinária, não é? Então, fiquei uma meia hora sentado na sarjeta, na maior deprê. E não é que a dita cuja reapareceu… no mesmo Uber! Olha, gosto das coisas bem resolvidas e fui lá de boa. Ela já era outra. Do nada, soltou o joelho no meio das minhas pernas e me largou lá. Pode? Ficar brava por causa de uma mijadinha…

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Filha, sei que a ideia desse Uber Pool é boa, mas as pessoas não estão se entendendo muito bem, não. Fui atender a uma chamada em Pinheiros e entrou uma moça e um rapaz no banco de trás. Primeiro achei que era um casal, mas depois vi que nem se conheciam, cada um cochilou de um lado. E quando a gente chegou ao destino, na Vila Mariana, pensava que os dois iam descer, encerrei a corrida e fui embora. Logo apareceu uma corrida compartilhada na Paulista e começou a ficar estranho demais. Peguei um sujeito moreno e fomos lá pra Higienópolis. No meio do caminho, eu vejo no retrovisor a moça da primeira viagem. Sim, ela continuava lá! Ou seja, compartilhando a viagem, não é assim que funciona? Não sei, no aplicativo não aparecia pra onde a moça ia. Ofereci água, segui o manual como se tudo estivesse certo. Até pensei que era esse que ela conhecia e não o outro, porque teve um momento no qual eles conversaram na maior intimidade. Pensei: se não aparece, é porque vão pro mesmo canto. Eu que sei como o aplicativo adivinha que conhecidos vão pegar o mesmo carro? Inteligência artificial, ué? Só que não acabou. Na chegada, de novo, só ele desceu. Ela ficou, depois dos dois baterem boca e tudo. Ela estava nervosa, pedi calma. Mas, espera, tem mais. Adivinha pra onde ela queria ir agora… Vila Mariana! De volta ao mesmo endereço de antes. Faz sentido? Pior que não aparecia nada no aplicativo. Àquela altura, achei melhor não entrar em detalhes e leva a mulher de volta. Falava muito. Preferi não contrariar. Dessa vez, desceu do carro e fiquei aliviado. E quem me aparece? O primeiro cara! E ela bate nesse também. Como vou saber? Preferi puxar o carro na ignorância a tentar entender o que aconteceu.

Alex Xavier, 42 anos, é jornalista refugiado na ficção. Publica contos no Medium: @alexxavier_27042