like eu

sobre humores ou fluidos | primeira semana bílis negra

E foi assim de repente, no metrô: vi primeiro as orelhonas, depois a cara comprida, os dentes inesquecíveis. Sim, era um jumento azul.

Fiz de conta que não, disfarcei, olhei para o outro lado. E encontrei mais um jumento, azul igualzinho.

— Like eu — ele disse.

— Como é?

— Like eu, like eu — ele implorou.

Saltei na Estação Paraíso, ainda sem entender. Coisas da vida contemporânea, essas pequenas miudezas da existência. Talvez o bolinho de ovo com pimenta tenha caído mal; preciso ser mais cuidadoso com o café da manhã.

No meu caminho começaram a aparecer dezenas, centenas de jumentos azuis. E todos eles implorantes, lacrimosos:

— Like eu!

Pensei em correr, fugir, mas resolvi encarar: tudo aquilo fazia parte da paisagem urbana, deveria fazer, pelo menos. Só não gostei do fato de não ter sido avisado com antecedência, logo eu que me considero tão informado.

Passei o resto do dia encontrando jumentos azuis: no trabalho, no almoço, no banheiro — sim, porque essa é a sequência lógica desses nossos tempos: você trabalha (quando tem um emprego, naturalmente), almoça e depois dispensa tudo no banheiro. Ou vai ao banheiro, almoça e despeja tudo no trabalho. São milhares as combinações, é sabido. O que é o que, é com você.

— Like eu — ouvi de novo o mantra.

Por volta das seis da tarde, já de saco cheio de tanta jumentice, explodi com o azulado mirim à minha frente:

— Liko não! Vai sifudê!

Péssima ideia: em dois segundos fui cercado de jumentos armados e enfurecidos; não tivesse corrido, seria um a mais para a estatística diária dos linchamentos.

Voltei para casa me sentindo assim: smile

Na minha cabeça a frase em loop infinito: Like eu.

Exausto e com a sensação de que algo havia mudado em mim, liguei para um amigo. Parece que ouvi um relincho.

— Like eu — ele disse.

— Você também?

— Já se olhou no espelho?

Azul nunca foi a minha cor predileta. Vou ter que me acostumar.

Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, entre outras publicações. É autor, pela Editora Draco, do romance Gabriel e também da coletânea de contos Delirium, pela Editora Penalux. Facebook: Claudio Parreira.