três poemas

sem título

Morremos ontem
Quando você entrou no banho.
Sempre morremos debaixo d’ água
Sempre morremos no domingo
Morremos na água.
— Um rito sagrado
Da sexta até o domingo
Percorremos todo o caminho
E morremos ontem.
Viveremos doentes
Até renascermos num sol mexicano
Mas ontem, morremos.
Antecipamos o desfile
De los muertos
E carregaremos até o Caribe
Um eclipse
“no mais suave crepúsculo das coisas”

esboço nº 1 (autorretrato)

Um carvalho ao vento
Era eu
Um pássaro negro
Desenho vermelho profundo
Uma floresta apagada
E desmundo

biombos

A mutilação do primitivo segue-se
A violação da veracidade do brutal,
Que num golpe de ar
[A vastidão
Apresenta-se como artifício do entendimento
Do fígado degradado que mitifica o amor.

Sob essa construção, edifica-se a aparência.
Reflexo sem cerne, que no âmago pétrea carne é.
A violência acaba no frio da vista
Que se depara com a calma do próprio olhar
Que de um golpe o grotesco atingirá.

Lucas Perito nasceu em São Paulo, em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros das áreas de história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico Caminhos da Mantiqueira (2011), de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Escamandro, Diversos Afins, Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses, Revista Entreverbo, Jornal RelevO, Revista Saúva. Também participou como tradutor na Revista Parênteses.