cassandra

No meio das ferragens, Teodoro enxergara uma luminosidade que atravessava o para-brisa espatifado de seu carro. Não pôde estranhar que a luz mantivesse um percurso correto, apesar do vidro completamente trincado. Naquele momento, talvez sequer soubesse onde estava, e nem os ossos quebrados lhe indicavam algo. Melhor assim.

Tudo estava quente. O sangue escorria pela testa, pequena cascata vermelha que se represava por um instante em seus cílios, para depois inundar os olhos. Percebeu ao lado a presença de uma mulher, os cabelos lisos emaranhados ao console, as unhas pintadas de cor-de-rosa. Não sabia que era sua esposa e, menos ainda, que não mais a veria. Em seu atordoamento, nenhum pingo de tristeza. Pelo contrário, uma tranquilidade invadia o corpo arrebentado.

A luz que entrava pelo para-brisa atingia seu peito, espectro magnífico de cores. Convidava-o para se libertar, numa comunicação que a tudo o fazia entender. Como não existiam dúvidas, deixou-se levar. Da mesma forma como pegava ondas, durante os verões na praia. Ao longe, um barulho de sirene.

— Não vamos perdê-lo. — ainda ouviu Teodoro.

— Um, dois, três!

Sentiu um tranco que o trouxe para o corpo, um lugar bastante incômodo e apertado. Procurou espaço, sacudindo-se como pôde, mas a tíbia arrebentada freou seus músculos. O calor crescia, sobretudo, perto de suas costelas, descendo para a barriga. Queria retornar para casa, que o deixassem, já aguardavam a chegada.

— Hemorragia, rápido!

* * *

A pequena Cassandra, no banco de trás do carro, caçava bichos virtuais em seu smartphone. A mãe cantarolava um sucesso antigo que tocava na rádio, enquanto o pai se incomodava com a embreagem gasta, o conserto sairia o olho da cara.

— Acho que tem acidente na frente. — disse o pai, ao perceber que os carros reduziam a velocidade.

A mãe, empolgada com o refrão, ouviu o comentário do marido, mas preferiu não perder o fôlego naquele momento. Acompanhou perfeitamente o cantor no rádio e, somente após a frase musical, retornou ao esposo.

— Já tem uma ambulância. Parece que foi feio.

— Cassandra, não olha para o acidente. — recomendou o pai à sua filha.

A mãe comentou sobre o mau hábito das pessoas em querer ver desastres, esticando o pescoço quase para fora da janela, a fim de obter alguma informação. Com a redução da velocidade, o pai se incomodou ainda mais com a pesada embreagem. Soltou um palavrão entre os dentes, que Cassandra ouviu com bastante atenção, aprimorando seu pequeno vocabulário infantil.

Quando o carro estava a poucos metros de distância do acidente, a filha largou seu jogo, a cabeça toda virada para a janela, à maneira de sua mãe.

— Olha, tem uma luz saindo do carro.

A mãe diminuiu o volume do rádio, como se os sons atrapalhassem aquilo que se via, e procurou o que a filha anunciara.

— Onde, Cá?

— Ali, perto da frente do carro.

Cassandra, agora, se deslumbrava com a luminosidade que saía pelo para-brisa do veículo. Não imaginava como as luzes podiam ser bonitas. Cores diversas, brilhantes e afáveis, que se misturavam bastante serenas, formando tonalidades inusitadas.

— Mãe, tem um arco-íris saindo do carro.

* * *

O socorrista cobriu o corpo de Teodoro com uma manta refletora. Preservava os motoristas do espetáculo da morte, assim como a dignidade do falecido. A adrenalina se refreava, não havia mais o que fazer. Logo, o Corpo de Bombeiros serraria as ferragens contorcidas.

Seria imprudência dizer que Teodoro estava bem, junto de sua mulher, em algum lugar esplendoroso. O que se via eram dois corpos jovens, esmagados pela fatalidade.

Os pais de Cassandra, ao perceberem a tragédia, quase gritaram para que a menina olhasse para o outro lado. A pequena, no entanto, absorvida pelas luzes, sequer ouviu as ordens. O carro passou lentamente à frente do acidente, onde o silêncio parecia sufocar os ruídos da Marginal.

Cassandra acenou para as luzes, e era como se bebesse seu chocolate morno, enrolada nas cobertas.

Celso Takashi Yokomiso nasceu em São Paulo, aos 09/06/1974. Graduado em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Mestre e Doutor em Psicologia Social pelo IP-USP. Docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Escreveu Limites (prêmio Festival Universitário Xerox do Brasil), Livro Aberto (Ed. Cone Sul, 1998) e Hiatos (prêmio Nascente — USP e Editora Abril, 1999).