o quarto

desde que deixei meu quarto
minha mãe vela ali
a ausência de um menino

(quarto que à sua medida
é maior que a própria casa)

não nasceu um sol
nem subiu uma lua
sem que ela, esfregando cada canto,
cada móvel, cada troço,
não descarregasse
seu zelo ao filho invisível
abraçando um travesseiro
do qual já não lembro

desde que saí
minha mãe experimentou
toda configuração
possível num quadrado
puxou mesa,
moveu estante,
arrastou armário
e abriu a única janela

(já estão todos frouxos
os parafusos de meu quarto)

e numa última tentativa
passou uma antiga camisa
que hoje não me cabe
delegando ao ferro quente
o papel de um pai
que traz de volta o calor do filho

minha mãe sempre soube:
quando as coisas ficam
muito tempo paradas
forram-se de pó.
conformamos o tecido da lembrança
encardimos, mudamos as roupas,
trocamos de cama…

menos minha mãe
que se agarra ao seu endereço
e dali nunca mais.
fumando um filho transparente
num quarto nublado
e nele soltando juras
pela fumaça

Thiago Scarlata é poeta, músico, escritor. Teve um poema publicado na antologia Âmago, pela Editora Regência, em 2011, e outro que sairá este ano na antologia do Prêmio Sesc de Poesia Carlos Drummond de Andrade 2016. Finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2016, terá seu primeiro livro de poesia publicado em breve, Quando não olhamos o relógio, ele faz o que quer com o tempo, pela Editora Multifoco.