se soubesse atravessar o nome

Se hoje soubesse o que dizer não teria os olhos mudos
Falaria como a observar a manobra das ondas
permeadas por nosso olhar
Lembre dos objetos translúcidos
estamos pousados em cada um
Naqueles que contém cascas também suavizamos
os semblantes de rinocerontes ferozes
Cada batida, cada segundo uma migalha
entre os dentes e já digo as areias
somos feitos para chover desfazer
nessas fagulhas espalhadas pelo ar
Meus dias ficaram nos olhos de um carpinteiro
ao destilar as estações e não sabe pouco mais delas
do que da madeira bruta disforme que crepita
faz da beleza não o pronto
mas a memória do bruto antes da forma
Lembre as cartas e no dedilhar sonoro da máquina
a luz e fosse um verão enquanto turistas alcançavam
as ilhas do mar que juramos inacessíveis.
Tudo tão simples, as ilhas ao longe a praia e um meio dia
translúcido, como os objetos e repito nós neles
se afastando, como quem se afasta dos sonhos ao acordar.
Faço como antigamente revisito aquáticos
se hoje fosse domingo saberia o que lhe dizer
apenas um dia assim que calo e recolho
o nome que se desfaz para depois atravessá-lo.

Maria Carolina De Bonis, São Paulo, nasceu em 20 de dezembro de 1982, estudou literatura e escreve para mudar os caminhos por onde passa ou perder-se em alguns deles. Publicou o livro de poesias Passos ao redor do teu canto, pela Editora Patuá na Coleção Patuscada (2015), projeto premiado com o ProAC.