corrida de táxi

António é um homem simples. Taxista desde sempre, há muito que poderia ter-se retirado. Mas não quer. Gosta desta vida. E além disso, no activo, sempre é mais algum dinheiro que vai entrando. Acumulado com a reforma, permite um bocadito mais de desafogo, não muito, que a vida está cara e o movimento já não é o que era. A “crise”. Desde sempre que ouve falar em crise, mas nos últimos anos ela tem mesmo “mordido as canelas” de muito boa gente, incluindo as suas. Embora essas, sempre tenham sido magras e sem muito por onde roer. Mas não interessa, tem levado uma vida direitinha, sem grandes sobressaltos, e até conseguiu formar os dois filhos. Estão ambos bem, graças a Deus, embora longe, é certo.

Mas António é, como tantos colegas seus, uma espécie de filósofo do volante; sabe muito, ouve muito, vê muito. Pelo seu táxi já passou toda a espécie de gente, já conversou com muitas pessoas. Uma vez até transportou um Ministro. António nunca se esqueceu. E o Ministro conversou com ele e tudo. E no fim deu-lhe uma bela gratificação e disse-lhe que o país precisava era de mais homens como ele. Que dia! Memorável!

Hoje António está na praça de táxis do Parque das Nações, normalmente frequenta mais a da Aeroporto, mas calhou-lhe um serviço para aqui e deixa-se estar em amena cavaqueira com os colegas de sempre. O seu táxi já é o primeiro da fila e sabe que a qualquer momento irá ter um novo cliente, por isso está preparado.

Mal repara no casal que entra e se senta no banco de trás.

Ouve o destino e põe-se em marcha.

Os dois seguem calados e António depois de tentar por uma vez ou duas o seu sistema de abordagem preferido, “as vias de acesso na capital de que “eles” todos falam mas nenhum quer resolver, nem ouvir os que lá andam e que saberiam muito bem que soluções adoptar”, e não tendo qualquer reacção por parte de nenhum dos elementos do casal, desiste de meter conversa. Está habituado, nem todos os clientes são dados ao diálogo. Ele é que gosta de ir falando por aqui e por ali com uns e com outros, mas respeita a vontade do cliente, claro.

A uma certa altura nota que os dois lá atrás se beijam. Mas como se beijam! E continuam. Já não são nada novos, nem um nem outro. Isto foge um bocado às regras. Se fossem jovens, António chamava-lhes a atenção que não quer cá dessas coisas no seu carro, mas assim… E eles continuam. É certo que não fazem mais nada, mas beijam-se como se o mundo fosse terminar já ali à frente. A certa altura, António pigarreia. A mulher apercebe-se. Ligeiramente alterada, endireita-se no banco e olha-o através do espelho retrovisor.

— Desculpe.

É tudo quanto diz. Numa voz doce e suave e de face um pouco ruborizada.

António não diz nada. Olha-a mas nem diz nada. O olhar daquela mulher, naquele momento, tem uma dimensão infinita. António sente nele as profundezas do mar e as vagas dos Oceanos. António nunca pensara que fosse possível ver o mar no olhar de uma mulher e muito menos numa mulher de olhos castanhos.

A viagem continua e chegam ao destino.

António cobra a viagem e prepara-se para regressar a Lisboa quando a mulher se lhe aproxima da janela e, colocando a mão sobre a beira do vidro, olha para ele (ainda aquele olhar marítimo) e diz:

— Desculpe. É que não nos víamos há trinta anos.

[Pausa]

— Obrigada e tenha um bom dia.

E depois mais nada.

O casal afasta-se. António fica preso duma estranha emoção. Aqueles dois desconhecidos, que história será a deles?

Não sabe. António pensava que já tinha visto e ouvido de tudo e que já nada o surpreenderia, mas houve qualquer coisa naqueles dois e no olhar daquela mulher…

Qualquer coisa indefinível. Uma sensação estranha, ele diria até que palpável.

O dia continua. António põe o assunto de lado, até porque acha que não tem nada a ver com isso e será mais uma das muitas histórias com que já se cruzou sem nada saber delas. E são tantas!…

Seja como for, ao longo do dia, por vezes vêm-lhe à memória as palavras da desconhecida. Apenas isso, já que não lhe fixou o rosto nem qualquer traço para além daquele olhar.

Hoje sai cedo, troca com o colega às 7h da tarde. Já raramente faz as noites, embora até aprecie a generalidade da clientela nocturna. Tirando a “gandulagem” — que esses, já se sabe, é só dores de cabeça e chatices —, as pessoas à noite são diferentes: mais soltas, mais bem-dispostas.

Chega a casa, toma o seu belo banho e janta com a mulher. A sua Mariana, companheira de toda uma vida. Ainda se lembra de como se conheceram e de muitos pormenores do seu tempo de namoro. Depois casaram-se. E foi o melhor que fizeram. Sempre se amaram, mas António acha que nunca pensou sequer no assunto. E para quê? Não há nada para pensar. A vida dá, uma pessoa aceita.

António é um homem simples, mas sempre foi um bom marido e amante sensível e dedicado. Ainda gostam de se ter nos braços um do outro, embora actualmente isso já não aconteça com a frequência que lhes agradaria.

Mas hoje. Hoje António sente-se diferente, mais animado e tem uma vontade de fazer amor com ela…

Mariana não se faz rogada, de maneira nenhuma, também ela o ama desde sempre sem se atrapalhar a pensar nisso. António está revigorado, sente Mariana em todo o seu ser, ama-a profunda e entusiasticamente. Mariana, não lhe fica atrás, entrega-se-lhe toda, também ela rejuvenescida pela intensidade dele. Há muito que não partilhavam uma noite de amor como esta.

Mais tarde — calmos, sossegados, corpos ainda suados —, Mariana comenta:

— Meu Deus, homem! Que nos aconteceu hoje?

— Não sei, Mariana. Mas por momentos senti como se não te visse há trinta anos.

Ana Maria Monteiro é natural de Lisboa, reside atualmente em Braga. Precocemente aposentada duma longa carreira que se construiu no mundo dos livros. Primeiro como Diretora geral das livrarias Diário de Notícias, depois da editora espanhola Ediciones Atrium (em Portugal) e finalmente da portuguesa Epu.l — Edições e Publicações. Escreveu um pouco desde sempre, apenas por prazer e só para si mesma. Desde há algum tempo com mais regularidade, escreve apenas contos e, por vezes, alguma prosa poética.