poemas do livro ‘A arquitetura das constelações’

1.

escrever um poema é
desentranhar um poema

arrancar da matéria fria
o último bafo de vida

somos poeira cósmica
escravos da lógica

escrever um poema é
desentranhar um poema

dessa derradeira tábua
de salvação das invenções

chamada imaginação humana:
arquitetura das constelações

2.

se você está por exemplo
escrevendo um poema
sobre os dentes afiados
da memória ou sobre
como nuvens escuras de
poeira cósmica podem
subitamente transformar-se
em estrelas, e então
sem aviso prévio um gato
mete-se pelo poema
embrenha-se poema adentro
não o espante, não o enxote
a princípio um gato nada tem
a ver com os dentes da memória
ou com a poeira cósmica das estrelas
mas dê tempo ao tempo
reflita, repare em como fica bonito
o gato pendurado no poema
ou os dentes do gato enterrados
nas estrelas do poema
e assim fica tudo misturado
memória estrelas gato poema
e fica você de fora
com seu espanto

12.

já nem me lembro mais
se foi na sala de casa
ou na rua Kazinczy
em Budapeste

que você me deixou
para sempre com
uma faca reluzente
imaginária nas mãos

é símbolo e sugestão,
você disse enquanto a
lâmina lentamente refletia
o néon dos bares e desaparecia
entre nossas costelas

já nem me lembro mais
se foi na minha cabeça
ou na rua Křemencova
em Praga

que você correu entre
falsos tiros de escopeta
e disse que sonhava
em morrer num manicômio
mastigando o próprio cabelo

já nem me lembro mais
que antes do baque antes
de cair ao rés-do-chão
ainda deu para ver
a noite se dissolver
em seus cabelos

24.

você está às margens do rio Nevá
uma criança brinca nos degraus
não há ideias em sua cabeça
apenas ordinária

uma criança não é uma ideia
é um pequeno repositório
de futuro, é o que você
pensa às margens do Nevá

você está sozinho e séculos de
história retumbam nas pontes
os leões da Manchúria insistem
presos em seu pavor de pedra

o cruzador Aurora singra
pronto para disparar o
primeiro tiro da revolução
de novo e de novo e de novo

você tem a impressão de que
a criança reluz com sua ausência
de convicções, seu corpo todo
reluz em direção ao futuro
a história é uma farsa
com consequências
a criança cintila no meio do mundo
e você está sozinho

| poemas do livro A arquitetura das constelações | a sair ainda no primeiro semestre de 2017 pela Editora Patuá | a numeração dos poemas é de acordo com o livro |

Mauricio Duarte é jornalista, autor dos livros de poemas Balde de água suja (Editora Patuá, 2015) e Rumor Nenhum (Editora 7Letras, 2007, coleção Guizos), e um dos autores de Haja Saco, o Livro (Editora Multifoco, 2009), baseado em blog homônimo e já extinto. Vem publicando nas principais publicações literárias do país, como as revistas Cult, Lado7, Inimigo Rumor, mallarmargens, entre outras. Nasceu na capital paulista em 1981.