cadáver na praia

Prófugo, quem sabe, foste.
Sentes no couro verde-inchado
os frios e tremores dum vivo?
Expectativas, quem sabe inda. Mas,
antes que tanto temeste?
Acabado. Tão logo adormecido;
auge, congelado na juventude.

Pirata, quem sabe, foste.
Sentiu doces, amargos e o excesso
apimentado que arde no alto da boca.
Tempero egípcio, às margens do rio,
colheste. Mulheres, companheiros;
esses que eriçam os pelos. Prazeres;
de quais bebeste na taça?

Velho, talvez, tu sejas;
cadáver endurecido e mumificado,
arrastado foste na biga em Roma.
Tolo; dum modo estranho
o mundo conservou-te e
a aqui, agora, o mar te arrastou.

Fluem os grãos de areia às pancadas do vento.
O plúmbeo céu, as águas espumosas;
as gaivotas e os corvos d’água disputam:
nos mínimos teus veem brotar refeição.

Estremece-me as mãos,
mal posso abandoná-lo.
Cadáveres; pedrinhas d’areia na praia:
Homens que desconheço, mulheres
que já não são tentação. Uma criança!
A vós é tardia qualquer salvação.

Um país derrotado de gente
impulsionada nas vagas do mar.
Porém, quais eram? Há entre vós,
necrópole na areia, a quem possa identificar?
Há vida que o inimigo teu possa trespassar?

Esse sol, a lua que vem; cruéis.
Os odores de vós, que não
sensuais, insinuantes perfumes;
difícil é essa marcha sobre o cemitério.

Fábio Maciel Pinto. Curitibano, radicado em Joinville, Santa Catarina. É um quase escritor. O resto é desimportante.