[ontem]

Hoje caíram todos os dentes: foi indolor.
Quem com eles cerziu entornou o tempo.
Rasgou as horas: todas elas.
Ecoou o uivo em silêncio.
Desmoronam, sinto,
as paredes do útero, já alvas:
drenadas por asas que gotejam na areia.

Hoje fugiram os inocentes: todos eles.
Lacerada a ingênua outorga,
rompe a seta sem permissão:
desfaz a jura feita em sonho e
no círculo desnudo liberta os nós.
Sentir no desfazer das sílabas,
tormentas de sangue na imagem precisa.

Desfazê-la em fogo: não se deve:
cresceria sem vestígio.
Vertê-la em água: não se pode:
leva consigo a contrição.
Ouse calar ao vento a matéria
de que é feita. Resta ao insulto
deitar sob a terra e parir em dor.

Morgana Adis é a assinatura de Claudia Aguiyrre com as letras. Leitora antes de nada. Deixou de ser jornalista e professora de cinema por uma vida mais integrada ao meio ambiente. Se mantém documentarista e editora e em ambos os ofícios lhe importa ouvir. Orientada a escrever com mais regularidade pelo poeta Leopoldo Comitti, o faz entendendo cada vez menos de tudo: desta vez com mais propósito. Nasceu em Santiago do Chile e vive o Brasil há quase quarenta anos.