polifemo em lilipute

Caminhamos por cerca de uma hora na trilha. Cercados por árvores gigantescas, muitas delas centenárias, como uma horda de polifemos. Em sua maioria jaqueiras, o que se podia notar caminhando descalços pela trilha. Desistimos das hawaianas, pois esmagávamos a massa melada da fruta pisoteada misturada à terra e ao mato rasteiro batido que se espremia entre os dedos dos pés. Um contato com o suprassumo da natureza selvagem. Uma mescla de cheiros tomando o ar e nossos narizes.

Em alguns trechos tínhamos que praticamente escalar entre as rochas encravadas na montanha: de um lado um paredão verde-amarronzado, do outro o desfiladeiro da mata fechada onde, de quando em vez, se avistava o mar. Atracados em troncos, em galhos mais grossos ou cordas naturais, firmávamos nossos pés entre pedras fixas e raízes expostas.

Quando atingíamos uma clareira, parávamos para o pitstop, onde bebíamos água e trocávamos impressões sobre a caminhada. Subidas íngremes, descidas idem, formigas, pernilongos e marimbondos, um esquilo, macacos, o medo das cobras, o cansaço, a amizade, a cara vermelha, o suor coletivo, os cheiros, principalmente de jaca, e o barulho da arrebentação das ondas no paredão das rochas como prêmio.

Na derradeira descida, onde praticamente escorregamos de bunda, pois era humanamente impossível descer de pé porque o verde e as rochas abandonaram nossas pisadas, tornando, devido à inclinação, o terreno espinhoso para brincadeiras desnecessárias e imprudências juvenis. Em terra firme, após um corredor de árvores mais baixas em meio a uma vegetação rasteira, finalmente, um portal se abriu e nos deu passagem: uma lagoa artificial se descortinou cercada por rochas gigantescas como polifemos enfeitiçados por Medusa. Todos nós tchibum na água e os mais audaciosos atravessaram a nado até a sequência majestosa de paredões como numa competição dentro de uma piscina natural.

Eu, como ainda não sabia nadar, entrei na água pé-um-pé-dois-pé-três, como uma lesma manca, resultado do cruzamento entre a tartaruga e o bicho-preguiça. Sempre sem pressa nenhuma, taurino que sou. Pálido, branco-gelo, quase albino com vitiligo, me lambrequei com protetor solar fator 60, para garantir que não voltasse para casa vermelho como um camarão, parente do pimentão. Caminhei naquele ritmo quase zen, absolutamente relaxado, molhando as palmas das mãos ao acariciar a superfície das águas. Atravessei seguramente até as rochas, depois de perceber que à minha direita havia uma corrente mais forte que desembocava num poço mais fundo. No sentido que tomei, onde visualizei famílias com crianças, me senti seguro para atravessar: além de conseguir enxergar meus pés, a água chegava no máximo até os meus ombros.

Transposta a barreira líquida, me escorei numa rocha, alçando-me para fora da lagoa natural como o homem primevo, surgido das águas do mar imenso. Passei por um casal de mãos dadas que colhia conchinhas e apreciava siris e caranguejos em meio aos musgos que se formavam nas rochas como dentes careados. Logo escalei uma das mais altas, pés molhados secando ao sol e também ao contato com as rochas polifêmicas. Levei pouco mais de cinco minutos, mas que pareceram uma eternidade devido ao risco de queda iminente. Elevado, sentei no topo da rocha e contemplei o quadro romântico emoldurado pela força das ondas da arrebentação, logo abaixo de mim, espirrando espuma num estrondo incessante. No horizonte distante gaivotas pescadoras e, no mais palpável a minha volta, no chão da rocha que me abrigava havia esconderijos de siris, aranhas e caranguejos.

Só então fui sofrendo um processo de metamorfose, me tornando cada vez mais liliputiano, de modo que compus um poema mental que me acompanhou durante o resto da tarde até o camping e o fim da viagem no regresso para casa, como um mantra.

Eu não tinha uma câmera, na época não existia celular — pelo menos não desses com câmera —, mas de qualquer forma eis o registro. Pronto e ponto. Éramos todos tão jovens, rebeldes e loucos. Agora estamos a sós aqui, só nós dois — você, azul de cima abaixo; eu, transparente e invisível; e a música das esferas! —, aprisionados na minha memória. Não existe mais ninguém, não existe mais nada.

Andri Carvão cursou Artes Plásticas na Escola de Arte Fego Camargo em Taubaté, na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e na EPA — Escola Panamericana de Arte. Graduando em Letras pela USP, publica poemas regularmente na revista on-line Labirinto Literário, é colunista do site Educa2 e participou da antologia on-line Gengibre: Diálogos para o Coração das Putas e dos Homens Mortos (WordPress) e da antologia de poesia brasileira contemporânea Além da Terra, Além do Céu (Editora Chiado).