melinda e o vampiro

A maioria não sabe que os ponteiros de um relógio numa montanha andam mais rápido que os de um relógio num vale […] o “presente estendido” é a maior mudança na compreensão da estrutura temporal do mundo […] não existe “o estado de tudo exatamente agora”. Passagem do tempo é determinada por um campo (gravidade quântica). O tempo oscila continuamente, se move para frente e para trás […]
Carlo Rovelli, físico quântico

— Olá, Melinda.

O homem a cumprimenta. Custa a reconhecê-lo. De repente se lembra do casamento dele com Maria. Servira de dama de honra. Devia ter uns quatro, cinco anos, no máximo. Não via essa criatura há séculos.

Melinda se chocava com aquela sua estranha mania de relógios. Um em cada pulso, outros distribuídos pelos tornozelos. Diziam que em sua casa os havia até no banheiro e ele, religiosamente, não deixava passar vinte e quatro horas sem lhes dar corda, acertá-los. Se via vagareza em algum ponteiro desobediente, a casa vinha abaixo: brigava com a mulher, com a empregada, com o mundo inteiro. Saía batendo portas, furioso.

Para Melinda-criança aquilo era muito esquisito. Tinha medo.

Olha bem a figura: terno, gravata frouxa, sentado no bar com a perna cruzada, o que expõe sua canela. Perto do tornozelo uma plaquinha incrustada pressiona a pele de dentro para fora. Ali, no mesmo lugar onde, antes, trazia um dos relógios. A placa subcutânea é um chip. Ela tem certeza: um implante. Procura por mais e os vê, sob os pulsos. Ambos. Como usava os relógios. Há séculos.

Ao notar que os olhos da moça percorrem seu corpo, retruca:

— Os chips, Melinda, servem para controlar o tempo. Isso de se passarem minutos, horas, dias, anos e por fim marcharmos de volta ao pó, nunca me satisfez. Agora diminuo a velocidade com que os eventos nos acontecem. Vivo lento rio e não violenta cachoeira de acontecimentos, até consigo me desviar de alguns mais perigosos. Nunca mais nos cairão à cabeça coisas inesperadas. Graças a essa nova tecnologia.

Ruperto Ruiz, enfim se lembra do nome, enche a boca de palavras, pleno de empáfia por se achar imortal. Pensa manter a morte sob controle, com rédea curta, será?

Respira fundo e continua:

— Tão magra que parece 16 anos e não os 26 que sei que já fez. Lembro-me de você pequena, quando Maria ainda estava viva.

Prossegue:

— Seu presente está fraco, se desfaz. Tudo em preto e branco como um filme de Antonioni. Pobre de você. Venha, continua Ruperto, vou te apresentar a uma amiga. Ela tem um poderoso guia. Pode ser que você o veja, pode ser que não. Talvez consiga te trazer de volta ao presente, te tirar desse limbo, te ancorar no aqui-e-agora, enfim.

Ajuda a moça a se levantar. Insiste:

— Mas o que houve com você? A quem entregou tudo o que era? Onde foi parar aquela daminha saltitante?

Ao saírem do bar ele lhe oferece o braço.

Na esquina, topam com uma senhora de meia idade, tranças cor de cobre presas no alto da cabeça e olhos mansos. Tem mãos de pianista e seu jeito de andar mal tocando o chão, de virar a cabeça para ouvir melhor, lembra um passarinho. Um pássaro pequeno, desses que têm topete.

Confiante, solta o braço de Ruperto e aproxima-se dela que logo lhe toma as mãos entre as suas. Suaves mãos. Lembram pétalas de rosa recém colhidas.

Com carinho, ela diz:

— Você sofreu uma enorme sangria, minha filha. Agora está que é só resíduo. Precisa me contar tudo, todo horror por que passou para que eu tente te ajudar.

Ruperto Ruiz interrompe a amiga:

— Ela não passou por nada, o mal ainda a arrasta por um passado descolorido.

A moça sorri: será que falar a respeito a ajudará? Por outro lado, o que tem a perder?

Conta, então, que passara anos como uma flor de lótus cujo botão não abre. Nem pode dizer que o vampiro a escravizara: ela lhe entregara seu sangue, sua moral e sua vida. O pior foi quando perdeu as cores do mundo. Aquele ser fez dessa perda um banquete enquanto ela sumia sem forças, prostrada. Não consegue escapar do círculo vicioso. Está sem futuro, presa. Branca e preta é a realidade por onde caminha.

Fala para a senhora:

— Seus olhos. Eu gostaria de saber se esses olhos claros são azuis, esverdeados, ou cor de âmbar, não tenho ideia. Pra mim são olhos transparentes, de uma cor morta.

Diz isso e se encolhe ainda mais.

— Preciso das minhas cores, murmura.

A senhora sorri e a puxa para o banco de pedra do calçadão da praia. Melinda vê o mar cinzento, a areia incolor, um céu sem luz onde o sol é uma lua cheia. São duas da tarde, mas, para ela, o dia está morrendo.

Melinda chora.

As mãos da mulher-passarinho esvoaçam à sua volta sem tocá-la. Asas. Querem despi-la desse véu onde ela se afoga. Melinda tem a alma quase morta de tristeza. Encosta a cabeça no ombro da senhora e geme.

— A soma de nossas forças é essencial, você vai ver.

Melinda fica meio tonta.

Um arrepio a sacode.

— Onde estão as cores? Só usar o preto e o branco esgota-me como uma semana mal dormida. Então, desfaleço.

— Bem, o homem-chip serve de porta-voz. Bem, prossegue, escute com atenção. Você tem que voltar a ser você mesma. Catar os cacos de seu caleidoscópio, reconstruir-se. O vampiro já se foi. Cabe a você sair da sombra que ele deixou.

As palavras a embalam, afetuosamente.

Melinda havia esquecido essa doçura trancada no botão da flor de lótus.

Sente um calor explodindo no peito. Seu coração começa a derreter e o hálito que sai de sua boca tem perfume de flor.

Não se sabe de onde, uma aquarela desaba sobre a cidade.

Cores, cores e mais cores.

O espetáculo é de tirar o fôlego.

Melinda bate palmas: estava salva.

Os olhos da senhora, de um azul escuro, brilham, vitoriosos.

Regina Taccola é médica, psicanalista e escritora. Autora do livro Uma tarde embalada pelo mar (contos, 2016). Seu conto “O Eunuco” sairá na Antologia de Cem Mulheres Latino-americanas, organizada por Sidney Rocha.