terreiro

Um pai de santo havia me dito que a pomba gira
estava virada na tua cabeça
Então você fechou a porta do apartamento na
minha cara e sentei na escadaria
Suas ofensas me feriram pra valer a ponto
de crescer manchas roxas no meu corpo
Pela primeira vez na vida vi sangue nos teus olhos
quando a rasga mortalha cruzou o telhado
anunciando mais uma tragédia
O mar desenhado nas cartas da cigana
Você não sabe, mas eu escrevia poemas disfarçados de
carinhos nas tuas costas e escrevia “amor” na tua testa
Eu sei que estás resolvida e que fracassei como homem
e talvez como poeta
Só quero que saiba que ainda sinto um calor quando
me lembro do teu sorriso e que as flores murcham
quando volto bêbado e triste pra casa
Tenho me feito de durão na rua, mas à noite tenho chorado
quietinho no meu quarto ao som de Nelson Cavaquinho
Não sei sambar
Se um dia eu escrever um samba
O terreiro ecoará teu nome.

Diego Moraes é poeta, contista e romancista. Autor de 7 livros. Publicado no Brasil e Portugal.