carinho

Você engorda. Emagrece. Faz cooper. Matricula-se no inglês. Senta direito. Anda com postura. Come com talher. Bota menos sal no picadinho. Come mais frutas pra cagar molinho e nunca deixa o celular descarregar pra ela não pensar que você está fodendo com outra no horário do almoço. Você exclui os nudes das leitoras. Fala que agora é algo sério para sua melhor amiga de Porto Alegre. Bloqueia os trafica e jura que agora lerá livros mais edificantes como “A história do direito em 12 fascículos”. Você varre o quarto e junta boletos de cobrança e diz pra si mesmo que prosperará. E que talvez vá até à igreja no domingo só para fingir que se emociona com o teatro do pastor ladrão. “viu só? Estou mudando” e ela vira pra você num sábado quente como o cu de Cleópatra virgem e fala: “acho que estou gostando do meu professor de química. Ele faz diferente. Não é brutal como você. Quantas vezes pedi pra você meter com carinho?” então você corre pra sala. Para o esconderijo onde está a arma carregada. Ela ri. Debocha. Caga para seu sofrimento. Você então chora e acerta dois tiros nela. Um em cada joelho. “agora quero ver se ele vai abandonar mulher e filhos pra meter em você com carinho” ela grita. Esperneia na poça de sangue. “Nem aleijada volto pra ti! Seu corno desgraçado!” então outro tiro acerta a cabeça dela. Miolos mancham o quadro falso de Dali. “E agora, Ana? Ele ainda faz com carinho?”

Diego Moraes é poeta, contista e romancista. Autor de 7 livros. Publicado no Brasil e Portugal.