aos pés de Lisbela

Alguém havia jogado um trapo de roupa usada no meio da rua, em frente à igreja, bem ao lado dos que dançavam embriagados. Não vi quando jogaram, cheguei e estava lá. Choquei-me mais com o contraste entre a casa de Deus – aleijada porque só tinha uma torre – e o pulular de seres desejantes e barulhentos, que enchiam a lata e se moviam de modo aleatório e desafiador à sombra das barbas do Pai.

Uma senhora malvestida observou o entulho, e não vendo nada que lhe interessasse, seguiu seu caminho. Ouvi-a resmungar enquanto partia, claramente insatisfeita. Não sei se cuspiu, parece que sim.

Dois homens que se beijavam como se nada mais no mundo existisse, toparam nele e ficaram surpresos. Talvez por um consumo excessivo de drogas, puseram-se a falar animadamente com a roupa, tentando retirá-la do chão, convidando-a para dançar. Como entulhos de tecido não são entidades vivas, nem mesmo aos pés de Lisbela, os enamorados desistiram, não sem antes executar verdadeira dança da chuva ao redor dos trapos. Partiram abraçados, lamentando (alegres) a tristeza em que se mantinha o objeto inanimado.

Vieram dois policiais. Marchavam de modo imponente, os peitos estufados, fixando com olhos de leão a multidão apinhada na frente dos bares e no meio da praça. Era impossível, de onde eu estava, escutar o que diziam. Vi seus lábios se movendo, o canto da boca de um deles expressando claro sarcasmo, mas sua voz perdia-se na avalanche de gritos e cantorias, nos copos que tilintavam, nos altos risos. O que permanecia calado cutucou a roupa com seu cassetete. Depois disso, retomaram a ronda.

Teve também o casal de jovens bem-vestidos, olhos assustados, não se sabe por quê, que passou como um raio. Se a roupa abandonada fosse uma cobra, teriam sido picados por ela. A menina, cuja cor da pele destoava do ambiente, a ponto de ser objeto de uma saraivada de olhares famintos, apressou o passo quando viu ao longe duas fardas caminhando lentamente. Puxou o rapaz pelo pulso, dando-lhe um tranco.

Pedi mais uma cerveja. Mal podia ouvir meus pensamentos. Sem saber por quê, minha visão sempre voltava para o entulho. Era como um obstáculo inconveniente no meio de um formigueiro, todos passavam ao lado, desviando de modo automático, levas e levas de formigas serelepes. Ninguém pisoteava as peças de roupa, respeitando, talvez, a propriedade privada, ainda que fosse de se desconfiar que o trapo não pertencia a ninguém, sequer ao Deus caolho que ali se mantinha, impassível.

A hipótese foi confirmada quando um padre se aventurou por aquelas bandas, benzendo o populacho, a contragosto deste. Via-se, além de sua careca brilhando sob o reflexo da lua, que seus olhinhos acusadores faiscavam de empáfia, ante a presença do demônio. É claro que riram dele, mas isto não tem importância. O que importa dizer é que o padre não recolheu os trapos. Deduz-se, portanto, que não pertenciam sequer à divindade que costuma olhar pelos homens.

O local começava a se esvaziar. Aos poucos, refluía aquela maré alcoólica. Gatos pingados se bolinavam nos cantos escuros. Ouviu-se um tiro distante, e botas ressoaram no asfalto. O ápice foi quando desligaram o som, os foliões fora de época tiveram que reconhecer o fim próximo daquela saudosa esbórnia. Acenderam-se os últimos cigarros. Dois homens seguravam os braços de uma mulher que vomitava a dois metros da roupa suja. O céu perdia a intensidade de sua negrura, tornava-se aos poucos azul.

Então chegou ao local um ser estranho. Era baixo – ou baixa, não podia dizer –, encolhido sobre si. Seus membros tinham formato bizarro, pareciam quebrados, torcidos. Nenhum deles tinha tamanho igual e voltavam-se para direções contrárias ao que fora, pelo Deus caolho, estabelecido como normal. Lembrei-me imediatamente de Victor Hugo e de seu personagem disforme.

O pequeno monstro se arrastava em direção ao amontoado de roupa e fiquei quase feliz ao imaginar que finalmente o seu dono iria recolhê-las. Não se deve deixar as coisas assim, ao léu, no meio de uma rua onde dança gente enlouquecida. Quasimodo cutucou, como fizera o policial, a trouxa, esperando um milagre. Insistiu. Nada. Em seguida, retorceu-se de tal maneira a poder carregar a roupa para cima da calçada.

Confesso minha incapacidade de descrever esta cena surreal.

Depois de ter realizado a façanha, que esgotou, aparentemente, suas forças, o pequeno ogro permaneceu ali, ao lado de suas roupas, fixando a torre única da igreja. Iria vesti-las, as roupas? Alguém viria buscá-las, ajudando-o com tamanho peso? Foi esta curiosidade que me fez permanecer quando todos partiam. O dono do bar não reclamou porque não parei de pedir cerveja.

Agora o céu tinha tons de rosa-azulado – um pássaro cantou para confirmá-lo. Ouvia-se o eco de passos distantes. Não posso dizer ao certo, mas acho que só estávamos nós quatro ali: o entulho, o monstrinho, o garçom a cochilar numa mesa atrás de mim e eu mesmo.

Veio então um automóvel branco com sirenes silenciosas no teto. Desceram homens sisudos e fortes. Olharam se a roupa prestava, sem dar atenção a quem cuidava dela. Gostaram do que viram. Isto se prova porque a recolheram, é verdade que de um modo um tanto bruto. Jogaram-na na traseira do veículo e partiram.

Ainda fiquei um tempo a observar o ser retorcido. Parecia dormir de olhos abertos. Embora se voltassem estes para a igreja, era como se não a enxergasse, varavam sua estrutura aleijada e inútil. Depois partiu, no seu passo lento e alquebrado.

Caio Lobo (pseudônimo de Bruno Mendonça) é pernambucano, nascido em Recife no dia 14 de setembro de 1979. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e concluiu Mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB). É servidor público no Ministério Público Federal, lotado na Procuradoria Regional da República da 5ª Região. Criador do Blog do Francês, colunista da Revista Philos e autor da coletânea de contos Trôpegos visionários, lançada em 2016 pela Editora Kazuá. É também autor de obra acadêmica intitulada O conceito de sociedade internacional, um lançamento da Paço Editorial.