urbe

I

dentro da cidade, como um dado
que derrete sobre o calor do concreto,
aquele homem, os úmidos pelos das pernas
aderindo à calça velha, a lembrança
tremendo nos lábios

e certo do tamanho
desta tarde, da tragédia
desta tarde, da dureza
deste asfalto, do asfalto
desta falta, caminha,
tonto, entre as linhas
imaginárias dos trópicos,

sob o brilho escondido
das estrelas, dentro da melhor
cidade da américa do sul

II

por onde
ir? pergunta

ao próprio corpo,
onde deitar para não

doer? [a certeza-soco
da existência, este cisto

encravado na retina,
no meio do caminho]

por onde poder partir
para além da ruína?

III

veículos, cães, o seco
vapor das palavras ditas
em português do brasil

e tudo por todos
os lados, produtos
das bocas desta brasa

quente como é muito quente
uma merda fresca, um cu
dissolvido em suor [não

eu nunca quis perder
os pontos de chegada,
eu nunca quis saber
que não existe nada

de repente, um tiro,
um salto, um espanto,
e o mundo entorta,
e a língua corta
o fio de seus verbos

devo andar? apenas
perfumar a pele
com a fome de
uma faca? a vida

não vale este estrume
sob o meu sapato
a morte não vale
este sapato, meus pés
sobre o mole da merda

repito: VIDA
meus dentes estranham
o som da palavra
a ponte espantada

a vida, a vida,
não vale um cascalho
destas avenidas]

João Pedro Liossi (1996) mora no interior de São Paulo, em São José do Rio Preto. Estuda Letras na UNESP, além de ser músico e poeta. Em 2015, publicou um fanzine de haicais, além de poemas nas revistas Gente de Palavra, Raimundo e Mallarmargens. Seu primeiro livro, Aquilo que chamávamos de escuro, será publicado pela Editora Urutau.