espelhos

Vim para o mato. Estou no mato. Beira de rio, arranchada em barranco, como nunca fiquei, sob uma árvore magnífica. Sem espelho. Não me lembrei. Não o trouxe. Talvez, de tanto estar em cidades, eu tenha esquecido que espelhos não são parte da natureza, que eles são coisa que não existem por si mesmos, naturalmente, fora da flor d’água. Me esqueci que espelhos são feitos por alguém, por alguma indústria do homem. Só no meio do caminho, me lembrei. Pronto, estava esquecido. Não tinha o que fazer. Daí, pensei que sem ele eu poderia ficar liberta, escondida de mim, do algoz que sou de mim mesma ou daquela que me aprovando, condescendente, sorri, me olha dizendo bom dia, como vai?… Me peguei a pensar sobre a ausência, melhor, sobre a inexistência dos espelhos. Fui longe nesse devaneio. Voltei a universos destituídos de espelhos que nunca habitei. Voltei para a beira do rio e do mato, onde eu havia acabado de chegar. Pensei em toda minha ancestralidade, em toda ancestralidade universal. Peguei a pensar que índio, originariamente, não tinha espelhos. Alguns ainda não os têm. Pensei: será que a ausência dos espelhos retirava deles a vaidade? Não retirava, eles a tinham. Os índios que nunca viram espelho tinham vaidade. Sempre se enfeitaram. Eram vaidosos. Então, como se avaliavam? Concluí que podia ser que mediam-se uns aos outros. Não, mediam-se uns pelos outros. Um era o espelho do outro. Na impossibilidade de se ver, cada qual se via no outro. O outro era o espelho daquele que o olhava. Um era o espelho do outro. Eu que não me vejo, enfeito a você como gostaria de estar, de ficar. Você que me olha, além de mim, vê a você mesmo e nesse olhar, me pinta a pele, me enfeita, vendo a você e não a mim. Enfim, um é o outro, aquele que pensa que é. Nisso, se misturam o velho que vê o novo e o novo que é por ele visto. Um não sabe exatamente quem é o outro, porque ambos se fundem pelo olhar.

Julianne Veiga tem 59 anos, é de Goiás, uma antiga e histórica cidade do interior do estado de Goiás. Casada, três filhos, três netas.