sala de jantar

Quando todos se sentaram à mesa de jantar, a filha perguntou de novo:

“Mãe, ela virá hoje?”

“Não sei, filha”, tentou calar numa resposta.

“E se ela não vier? Não ficará com fome?”

“Enquanto estivermos aqui, ela nunca passará fome. Agora coma antes que esfrie.”

O irmão observou o avô, que bebeu um pensamento num gole do suco de laranja. O pai pediu o arroz e a filha deu uma olhada para a cabeceira posta e vazia antes de levar o garfo à boca.

Na manhã seguinte, na escola, a filha viu no mapa onde foi o epicentro de um recente terremoto e o irmão foi à biblioteca procurar “nosologia” no dicionário. O pai saiu para o escritório licitar hélices de ventiladores e a mãe, antes de levar o avô ao médico, passou pela feira. Era dia de peixe.

Quando todos se sentaram à mesa de jantar, a filha perguntou de novo:

“Mãe, é hoje que ela vem?”

“Não sei, filha. Como foi na escola hoje?”

“A professora falou que há muito tempo atrás algumas crianças eram sacrificadas para ganhar algum presente de Deus.”

“Às vezes precisamos consertar nossos erros através dos filhos, querida.”

O irmão observou o avô que limpava a boca com o guardanapo. O pai tirou uma espinha de peixe e a filha deu uma olhada para a cabeceira posta e vazia antes de se servir de salada.

No dia seguinte, à tarde, o irmão decifrou o silêncio que acompanhava a mãe e o avô durante a ida ao hospital. A filha recortava obituários de crianças do jornal e o pai levou o carro para lavar. Hoje vai ter lasanha.

Quando todos se sentaram à mesa de jantar, a filha perguntou de novo:

“Mãe, será que é hoje que ela chega?”

“Como poderei saber? Mesmo assim, estaremos sempre prontos para recebê-la.”

“Mãe, será que ela não gosta do que a gente costuma comer?”

“Ela não se importa com isso, filha. Vem sempre por nossa causa e não pela comida. De qualquer forma, devemos sempre recepcionar bem quem visita nossa casa. Agora prove a lasanha. Está uma delícia!”

O irmão observou o avô, que tossiu. O pai guardou o jornal assim que foi servido e a filha deu uma olhada para a cabeceira posta e vazia antes de encher o copo com refrigerante.

No dia seguinte, à noite, a filha colocou seu melhor vestido. O irmão voltou a não compreender e chorava, sem soltar a mão do pai, que respondia ligações do celular. A mãe saiu da cozinha com uma macarronada e o avô não estava mais na sala de jantar.
Quando todos se sentaram à mesa de jantar, a filha perguntou de novo:

“Mãe, ela veio hoje?”

“Sim, querida. Ela levou seu avô para se encontrar com sua avó.”

“Um dia ela vai me levar para ver eles?”

“Vamos comer, querida. Não podemos nos atrasar. Você está linda!”

Quando todos terminaram de comer, levantaram-se em direção ao carro. O irmão limpou as lágrimas na manga da camisa do pai, que procurava as chaves nos bolsos. A mãe ainda fez o último retoque na maquiagem e a filha deu uma olhada para as duas cabeceiras postas e vazias, antes de fechar a porta da sala.

André Mellagi (São Paulo-SP) é formado em Psicologia, mestre e doutor em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP. Participou de coletâneas de contos, como a primeira edição da revista Pulp Fiction, além de publicar em blogs de literatura. Teve coletânea de contos que recebeu menção honrosa em 2014 no Programa Nascente da USP e obra pré-selecionada no Prêmio SESC de Literatura de 2016, a ser publicada pela Ed. Patuá em 2017.