sonata para a cidade

Bosta! A palavra escapuliu.
Estava aqui em qualquer canto
e não está mais, perdeu-se.
Tão adequada e pertinente,
tão apropriada para o momento
em que penamos,
mas foi-se antes de ser,
coisa de palavra que não quer.

É tanta fuga,
é tanto medo,
é tanta lauda
que não diz,
tamanha é a força
e o contingente,
do lado de lá
desta trincheira;
e eu, que tinha uma palavra
para atirar
como uma faca,
melhor, como uma flecha,
melhor, como uma granada
que explodisse,
já não a tenho.

No entanto, chegada a hora,
ela virá; como sabe o cão
a hora da comida, como sabe
o rio o sentido do correr, como
sabe a pedra de ser terra e de
não ser, ela saberá.

Se resultasse,
se resolvesse,
se ela voltasse,
se acontecesse,
mas o céu está em chamas
e abaixo dele a vida segue
como se não fosse besta;

o pão está caro,
o linho também,
ir e vir, mais ainda,
a noite não finda,
o dia não vem,
o gozo é tão raro,
mas há um cigarro
e um pouco de sol.
Atravesso a rua e
contento-me
enquanto se negocia
risco ao futuro.

Se eu esquecesse o que aprendi,
se eu pudesse reaprender, ressentir,
mas falta-me a palavra que eu não esqueci,
perdi, como se perde a hora,
como se perde o tempo,
como se perde a vida,
não por não sabê-la,
mas por não encontrá-la,
nem encontrar outra mais adequada
ao que ora vivemos.

Canso. Basta. Já não a procuro.
A palavra não quer ser escrita
nem declamada, nem dita,
a palavra não quer enfeitar nada.

Não importa, o nosso tempo não
precisa da palavra para ser,
o tempo é independentemente
do dizer, do perceber, do registrar;
o tempo é a verdade e a verdade
prescinde do contar, não
necessita de adeptos para
ser o que é.

A verdade que anda sorrateira,
mas se espalha como ratos
na escuridão dos becos.

Yuri Pires nasceu em 1986, na cidade do Recife (PE), onde cursou História, na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), e viveu até 2011, mudando-se para São Paulo (SP), onde publicou seu primeiro romance, O Homem e o Seu Tempo (Chiado Editora, 2014), seu primeiro livro de contos, Fábrica de heróis (apenas em e-book, 2015), e seu primeiro livro de poemas, Artifício (Editora Intermeios, 2015).