entropé

“Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.”
(O Livro dos Itinerários)

sobre what’s up

o violinista no telhado
on the other hand
a secreta vida de walter mitty mais naquela partinha
que toca space oddity
as duas partes das relíquias
da morte
a caminhada solitária pra estação que nunca
mais é sem seu passo
a letra de canção que tem uma única frase lembrada
e o resto só murmúrio de voz incendiada
o apito de madeira de um avô à mão
entalhada herança repassada
o livro artesanal à quatro braços costurado
biblioteca comunitária entre dois
a trilha sonora do top gun no pen drive contaminado
cavalo de tróia e presente de dia dos namorados
a partida de uma e da outra o aniversário
avós compartilhadas
a queda de patins que nem rola
apoio e pernas e braços únicos em corpos distintos
o tapete de sala o chuveiro apertado as camas de cada
na carne de um o cobertor que ao outro faltava

pode ser uma lista

mas também pode ser a palma
da mão de namorada
aberta
encostada aqui na face
linha da vida escancarada
como quiromancia dissesse pra aquele
que nela inacredita

na sua cara

mas também pode ser uma ambiguidade
tipo luneta
ter e não ter a lua

mas também pode ser rever
o filme de ficção
científica que diz

não estamos sós

e reentender o recado
tá ali o astronautinha
pendurado me lembrando

mas também pode ser a tristeza
de que cada vez que o bane
racha o chão de gotham
de cada vez que um amigo
imaginário é apagado

de cada vez que o elefante completa o itinerário
e tem pés no caso patas arrancadas

filmes a rever coisas
nem desfeitas por fazer
ou que nem se quer mais espectar
l’écume des jours
un cuento chino

intouchables

pode ser uma lista mas também pode

pode ser do grego
da wiki
da gente
ela
é que me ensinou significado

mão a aprendeu e agora vivem cheias
essas mãos sem nada

ei
solta esse controle
não precisa mais ficar passando os canais

é en tro o quê
mesmo hein

pia

mas também pode ser lugar
onde uma mesma vida acaba e principia
zerando
qualquer entrada de dicionário
esfacelando e retornando muito mais

que átomo

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é autor dos livros de poemas rachar átomos e depois (Editora Patuá, 2016) e tempo espaço re tratos (Editora Patuá, 2014). Graduado em Letras na USP, desenvolve (ou não) projeto de mestrado com interesse em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Estudos de Gênero. Atua como assistente editorial na Patuá. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Mallarmargens, Germina, Jornal RelevO, LiteraturaBr, Revista 7faces, Flanzine (Portugal), entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique. Participou das antologias 29 de abril: o verso da violência (Editora Patuá, 2015), Patuscada: antologia inaugural (Editora Patuá, 2016), Golpe: antologia-manifesto (Punks Pôneis, 2016) e Poemas para ler nas ocupa (Editora Estranhos Atratores, 2016).