poema aparentemente sujo para almas lavadas

Eu não acredito na poesia
inseminada in vitro
na poesia
asséptica curvada lisa fria
feito madona talhada no marfim.
Não acredito no poeta
que se esfalfa se torce pena sua
não para cuspir na cara do mundo mau da hipocrisia,
mas para que sejam suas as graças da patota
da academia
as páginas da antologia
a menção nas teses sonolentas que ninguém que ame lua cheia ou
faça sexo sem nojo lerá.
Eu só acredito na poesia que é vômito na madrugada em cima dos
postes ancoradouros de bêbados
Que é escarro contaminado na emergência lotada da periferia
Que é sémen apressado despejado no banheiro público da
rodoviária.
Eu só acredito em poemas escritos com sangue nas folhas brancas
encardidas encontradas jogadas no chão engordurado do boteco
que vende marmitex a R$ 5,00 ao lado do puteiro.

| do livro Os filmes em que morremos de amor, Editora Patuá, 2016 |

André Giusti é carioca, nasceu em maio de 1968. Mora em Brasília desde 1998. É autor, entre outros, de A solidão do livro emprestado e A liberdade é amarela e conversível (contos, Editora 7Letras), e de Os filmes em que morremos de amor (poesia, lançado recentemente pela Editora Patuá). André Giusti também é jornalista e mantém o site/blog www.andregiusti.com.br