alma pisada cheira a cachorro molhado

A pele do pescoço não chora, retorce, os olhos miúdos, a carne trêmula e medrosa, um quadro-negro pintado a sangue, a seiva da morte escorrendo, renegada, pelo nariz. A vida aconteceu de surpresa, o cair da tarde, a rua lotada, o corpo, esganado no beco. Não amanheceu ainda. Ele estava lá. Trocaram afagos, afetos, gemidos. Ela, numa fala brusca e inesperada disse eu te amo. É claro que a boca não nega o que o coração sente, não mente, está cheio. Ele disse também, num gesto de aconchego, que amor é coisa de gente rica, bem feita, eu não tenho tempo pra paixão não. Ele não quis saber, sabe? Abaixou a cabeça. Não havia começo, então não haveria o fim e nem a desolação futura. Eu não posso fazer isso contigo, tá me ouvindo? De tão apaixonado e violento, o amor acabou por desunir o que nunca fora enlaçado, recolheu os cacos, as imprudências, chorou no colo da mãe, meteu o mundo nos bolsos e renegou o destino das coisas. A gente não entende, perde o sono, e aquela vontade louca de ser dono das palavras, mudar o rumo das coisas, enxergar o lado bom e inócuo na escuridão que cobre o céu de São Paulo, a solidão que dói no peito, onde mora quem nos ama e nos perdoa, e perdoa também as nossas falhas, as falhas que nem Deus poderia medir um dia e até mesmo, numa tarde, tranquilo, tomar o gosto por esquecê-las. O rosto dela, eu me lembro, era doce, tinha a juventude que engana os deveres, a triste alegria nos olhos, o medo, o tempo. Eu neguei a ela o meu tempo, dei o que tinha de pior na raça humana, a incredulidade, a ganância dos sentidos. Minha mão vermelha, pele rosada, calos à vista, os dedos tortos e o medo na cara lavada. Joguei a pedra, escondi minha mão, minha vergonha. Quando apertei seu pescoço, carne doce e dura, ouvi as músicas tocarem na minha cabeça, a minha loucura de menino, de louco varrido, cheiro de cachorro sujo molhado, a pressa em pagar as prestações do carro, a vida que não aceita palavras como moeda de troca, nem poesia, nem nada, que violenta a nossa boca infame de sonhador, e eu sonhando e buscando o gosto na solidão, no amor das putas, me desculpa, o rádio que não toca a nossa música, esqueceu, e as coisas e os ossos assim, tão frágeis, tão fracos, de vidro.
Meu bem, não tenho culpa, te juro,
depois eu te conto como faço para esconder seu corpo,
jogar da marquise,
voltar pra casa,
tomar um banho,
esticar os meus pés,
minha alma pisada.

Luiz Henrique Moreira Soares é graduando em Letras-Inglês pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), Campus de Jacarezinho. Apaixonado por cinema, música e literatura brasileira contemporânea. Contato: luizhsoares83@gmail.com