funerais em caixinha de fósforo

eram nossas as falhas
espalhadas pela arquitetura da mesa,
as minúsculas ausências,
os vãos na atmosfera
em atitudes de calar.

não eram nossos os pedaços de morte
que esperavam à espreita,
cão farejando presa,
faca fincada em queijo.

a morte nunca nos pertence.

a nós,
apenas as cinzas,
as caixinhas de fósforo
em que escondemos o corpo,
a brasa das conservas químicas
quando os órgãos ainda não sabem
o laudo da autópsia e
o coração parece querer pulsar
toda a vergonha de faltar o sangue.

não,
não nos cabe piedade,
não os violinos póstumos
as pétalas largadas debaixo da frase
nas lápides que forjamos
na tentativa de eternos,
as cores pretas
os rostos pálidos

mas talvez depois de mortos
caiba ainda à nossa pele
breves instantes de luz ao forno
e pequenos ensaios para vagalume.

Poeta em Queda é o projeto poético de Pedro Alberto Ribeiro, artista nascido em Sorocaba e residente na cidade de São Carlos. É autor dos livros de poemas e ilustrações Fogos, Mares e Marias (independente, 2015) e Naufragar Jamais (no prelo). Atua também com performances de poesia falada. Site: www.poetaemqueda.com