este é o meu corpo

O silêncio espalhado pelos espaços negros.

Estou sozinha em palco.

Escuto o som da minha respiração. Ofegante.

Acho-me sozinha em palco. Mas não é assim. Estou eu e o meu corpo. Este é o meu corpo.

Torno-me imagem e consciência fora deste corpo cansado. Guardo fantasias no meu corpo. Formas invisíveis. Projeções de um corpo em aceleração. Pedaços de um corpo esvoaçando para o mundo. Em redor o movimento deixou de acontecer. Apenas o meu corpo esvoaçando para lá da construção das ideias.

Os dedos dedilham os ângulos do espaço, dilacerando as paredes opacas. O corpo alonga-se, ao encontro de múltiplas memórias. O corpo cresce sobre os longos panos negros, ganhando asas. Corro excitada em perseguição do corpo fugidio. Corro ao encontro dos teus afetos. Corro como quem dança aceleradamente.

Olho para mim. Procuro movimentos ocultos nas pregas do meu corpo. Descubro o rasto das tuas mãos neste corpo descontrolado. Rastos de saudade. Vestígios de uma luxúria extravagante. Pegadas de um longo percurso através do frio. Manchas de uma humidade salgada, como lágrimas viscosas. O corpo esticado, em suspensão, como um elástico estremecendo de tensão acumulada.

Olho este corpo, feito de lados diferentes. Como uma folha de múltiplas faces. Curiosidade. Procuro compreender o lado oculto. Descobrir a liberdade acumulada nestas carnes doridas. Descrever o meu passado ao longo desta pele esticada, como se escreve uma carta de amores. Construir o nosso mundo sobre este corpo. Esticar os braços sobre as montanhas floridas de amarelos e sangue vivo. Deixar fluir estas pernas esguias ao longo dos ribeiros tranquilos.

Este é o meu corpo presente, esta parte de mim que me guarda como eu sou, não apenas como me mostro. Este é o meu corpo frágil, sujeito à força incontrolável das marés. Este é o meu corpo horrível, objeto de desejos condenáveis. O corpo magoado pelos espinhos das rosas que me ofereces. O corpo atravessado por rios de sangue espesso. O corpo a que me agarro para te alcançar.

Este é o meu corpo. Decadente. Mortal.

O corpo alongado, sobre a cor negra do chão.

Eu e o meu corpo.

A frescura dos tapetes negros tocam a pele esticada.

Esqueço-me do corpo, agora.

Estátua jacente sobre este palco deserto.

Vou em descoberta. Como os sons acústicos escapando-se das cordas esticadas de uma guitarra.

Vou em procura de ti.

Retirei do corpo as fantasias ainda vivas.

Percorro as longas veredas despovoadas.

Apenas o silêncio da distância entre nós.

Aproximo-me de ti. Do teu corpo estendido sobre o sono da madrugada.

Toco os músculos dormentes. A carne quente. Apenas o teu corpo.

Desejo tocar-te para além das carnes quentes. Penetrar no teu sono tranquilo. Invadir os sonhos insólitos. Gritar dentro de ti a vida e a fantasia.

Perdi-me do meu corpo, por ti.

Talvez procure agora perder-me em ti, em teu abraço. Tornar-me cor vibrante nos teus olhos, fantasia permanente dos teus lábios, palavra cantante em teu redor. Apenas eu, voltar para ti, sem este corpo exausto e corroído.

Este é o meu corpo.

Mas não sou eu.

Carlos Almeida é escritor, poeta e artista plástico português, autor do livro A Osmose do Ser, editado pela Artelogy em 2015. Responsável pelo departamento de Banda Desenhada da Associação Gicav. Integra a equipa da revista Anim’Arte, com edição trimestral e distribuição gratuita na região central de Portugal.